As origens, a trajetória e os novos caminhos do ensaísmo (uma entrevista com Liliana Weinberg)

Pesquisadora se dedica à compreender o ensaísmo e fala sobre origens do gênero inaugurado por Montaigne, características dessa “prosa de ideias” e sobre sua produção atual

Eduardo Cesar Maia

(Ensaísta, crítico e professor)

Quem acompanha meus escritos – aqui ou em outros espaços – já percebeu minha predileção por um gênero muito particular: o ensaio. Nos últimos anos, é nele – e a partir dele – que tenho pensado, investigado e exercitado minha própria forma de reflexão. Aproveitei os últimos dias de férias para me dedicar aos acabamentos de meu próximo livro: justamente uma coletânea de ensaios que exploram, entre outros temas, o alcance e o potencial da escrita ensaística em nosso tempo, tanto no debate público de ideias quanto no campo acadêmico. Ainda não quero revelar muitos detalhes, mas a obra será publicada nos primeiros meses deste ano. Pretendo utilizar este canal – o Substack Pássaros Interiores – como espaço alternativo de divulgação e discussão. Para iniciar essa jornada, disponibilizo agora uma entrevista que realizei há algum tempo com uma grande especialista no assunto, quando investigava justamente o ensaísmo e a vertente específica da tradição humanista em que ele se desenvolveu.

Reconhecida como uma das maiores autoridades acadêmicas nos estudos acerca do ensaísmo hispano-americano, Liliana Weinberg, nascida em Buenos Aires e naturalizada mexicana, tem se dedicado, entre outras coisas, à compreensão desse gênero híbrido, ao mesmo tempo tão rico e tão polêmico, que é o ensaio. Por se situar numa zona cinzenta, entre o filosófico e o literário, esse “centauro dos gêneros”, como propôs Alfonso Reyes, é tema até hoje de controvérsias, principalmente no âmbito acadêmico. Na entrevista a seguir, realizada em 2015 e publicada na Revista Disputatio (Espanha) e Continente (Brasil), a pesquisadora fala sobre as origens históricas do ensaio, aponta alguns possíveis precursores, discorre sobre as principais características que identificam esse tipo tão peculiar de escrita e mostra que ele está muito bem adaptado aos nossos tempos, ditos “pós-modernos”.

ECM – É possível determinar com precisão a origem histórica do gênero ensaio?
LW – Considero que Miguel de Montaigne é o inaugurador por excelência do gênero. Um autêntico “instaurador de discursividade” no sentido foucaultiano. Apesar de ser possível rastrear muitos antecedentes do ensaio na prosa não ficcional – e alguns críticos, como György Lukács, consideram que foi Platão mesmo o primeiro grande antecessor do ensaio –, sem dúvida quem realiza as operações discursivas decisivas para o gênero é Montaigne

ECM – Que características podem determinar se um texto é ou não um ensaio?
LW – O ensaio é prosa de ideias, escritura de interpretação, estilo de reflexão, que nos oferece uma perspectiva do mundo e convida o leitor a participar, como dizia Ortega y Gasset, de novas maneiras de ver as coisas. O primeiro traço que o caracteriza é que se escreve a partir de um eu que pensa e sente o mundo. O ensaio está sempre assinado, porque evidencia a responsabilidade pela palavra. O que buscamos no ensaio é um estilo do pensar e do dizer, um modo expressivo, uma escritura, um tom conversacional que inclui o leitor. Nele há uma apaixonante combinatória entre o fator pessoal, subjetivo, e o interpessoal. O ensaio é um gênero que, para dizê-lo com Pierre Glaudes, mostra-se, ao mesmo tempo, “egoísta e cívico”, ao vincular o íntimo, privado, particular, peculiar, próprio de um autor, com um alcance geral, destinado a interpretar e valorar distintos aspectos do mundo, conversar com os leitores e não só convencê-los, mas seduzi-los, aproximá-los não somente das ideias senão também da escritura. Quando nos aproximamos do ensaio, buscamos uma visão ou uma versão de distintas questões a partir do ponto de vista pessoal. Como disse Adorno, no ensaio não só se apresentam temas, problemas, conteúdos, senão o processo mesmo de pensá-los e o modo como o ensaísta nos inclui – seus leitores amigos – no processo de pensamento: convence-nos, faz-nos partícipes, como amigos aos que – como em uma conversação – deve-se ao mesmo tempo saber convencer e seduzir com suas intuições, imagens e demonstrações. Alguns leitores podem fazer uma abordagem superficial, pragmática, instrumental, interessada, coisificadora, do ensaio – que só busque unidades informativas ou atenda só aos conteúdos. Por exemplo, posso ler Casa grande & senzala porque quero extrair dados sobre certa etapa da vida do Brasil. Fazê-lo assim implicaria um tipo de leitura que Paulo Freire – e depois dele José Luis Gómez-Martínez – considerava instrumental, interessada. Mas também lemos um ensaio para alcançar uma experiência plena, desinteressada, conversacional, interpretativa, que nos permita dirigir nossa atenção à escritura, ao estilo, à experiência estética e ética. Regressando ao meu exemplo, posso ler através do ensaio de Gilberto Freyre um modo de interpretar a vida do Brasil, de descobrir estrategicamente certas zonas da cultura que podem ser chave para apoiar tal interpretação. A esse tipo de leitura podemos denominar “humanística”. Desse modo, posso chegar a ver como, graças ao prodigioso enfoque de G. Freyre, a “casa grande” e a “senzala” se convertem em um par de opostos que estabelecem entre si uma relação dialética que acompanha a interpretação de uma matriz cultural básica do Brasil, e funcionam em vários níveis ao mesmo tempo: literalmente, como formações culturais descritíveis por um historiador ou um antropólogo, mas também metaforicamente, inclusive como personificações e como chaves capazes de condensar diversos níveis de sentido.

ECM – Um valor filosófico central na modernidade foi o da “certeza”. O ensaio, não obstante, caracterizar-se-ia por não garantir nada e nem tampouco por esgotar os temas. Como o ensaio pode desenvolver-se sem levar em consideração essas “regras” filosóficas?
LW – Um tema que me obseda é precisamente o da boa fé e da verdade no ensaio: o ensaísta fala de boa fé ou de má fé? O ensaísta busca a verdade? E de que tipo de verdade se trata? Porque não é efetivamente uma certeza de caráter positivo, ou uma verdade popperianamente falseável. Em primeiro lugar, como diz Tomás Segovia, o ensaio se nutre precisamente dessa inadequação básica entre verdade e sentido na linguagem. É uma permanente busca de sentido guiada por uma fidelidade à verdade. Empregando uma imagem muito expressiva, Segovia diz que a verdade não é nem a inquilina nem a caseira da linguagem, nem a arrendadora nem a arrendatária: é sua fiadora. O ensaio lida com a verdade em um mundo feito valor, feito sentido. Por outra parte, diferentemente do que demanda a Lógica, que persegue univocidade e desambiguação, o ensaio trabalha com as línguas naturais, e é dentro delas que busca sentido: dentro da ambiguidade e da polissemia. O uso da linguagem que faz o ensaio não é meramente instrumental, não aspira só fixar significados em um domínio específico da realidade, como exigem, por exemplo, as perspectivas positivistas e cientificistas – são aproveitados os níveis expressivos, figurativos, simbólicos, como também as operações poéticas, para esclarecer o sentido e religar domínios. Em minhas aulas, quando procuro mostrar a diferença entre discurso científico e discurso ensaístico, sempre evoco o fato de que Florestan Fernandes declarou que Casa grande & senzala era um grande “antecedente” do conhecimento científico da sociedade. O ensaio de interpretação foi, assim, no momento da normatização das ciências sociais, convertido em um avô venerável, mas que devia ser mantido calado e tratado como familiar distante: um antecedente impressionista, um parente incômodo… E, contudo, sobreviveu à própria crise das ciências sociais.

ECM – Muitos pensadores (como Ernesto Grassi ou José Ortega y Gasset) assinalam um vínculo forte entre o ensaísmo e a tradição de pensamento humanista. A senhora está de acordo? Que tipo de relação seria essa?
LW – Estou de acordo. O surgimento do ensaio coincide em boa medida com o projeto humanista: uma recuperação das fontes clássicas, relidas com um enorme interesse de trazê-las ao presente e fazer conversarem os grandes mortos gregos e latinos com os vivos que querem incidir na consciência humana. No ensaio, evidenciam-se muitas das características do melhor humanismo: maior interesse pelo homem, reconhecimento da história como disciplina formativa, renovado interesse pela leitura e pelo livro, apropriação das fontes com um sentido de atualização, enorme atenção aos valores e interesse pela redefinição do conhecimento humano. O ensaio surge num momento chave, em que coincide a expansão do humanismo europeu, assim como também sua entrada em crise.

ECM – Que papel joga a metáfora – recurso muito comum no ensaísmo – no conhecimento filosófico?
LW – Sempre considerei a metáfora como uma figura ligada àquilo que os antropólogos estudam como “participação”, isto é, a possibilidade de enlaçar mundos e realidades diferentes através da postulação de uma analogia e uma afinidade qualificada entre mundos e níveis aparentemente diversos e impossíveis de combinar. O ensaísta amplia as dimensões do nominável e do inteligível; diz de maneira nova coisas novas, mas também se atreve a estabelecer relações impensadas por outros atores culturais. Gosto de dizer que o ensaísta converte os temas em problemas e os problemas em temas. Coincido também com aqueles que veem nas metáforas a possibilidade de modelar a realidade: aqui também nos aproximamos ao labor do ensaísta.

ECM – É possível falar de tradições ensaísticas diferentes de acordo com épocas ou países? Ou o gênero possui uma história única e continuada?
LW – Assim como Renato Ortiz se pergunta se é possível falar de uma ou de várias Américas Latinas, também é possível perguntar sobre se devemos falar de ensaio ou ensaios, e examiná-los efetivamente à luz de distintas tradições. Por exemplo, considero que a tradição latino-americana do ensaio não coincide com a peninsular. Para começar, vejo no Padre Bartolomé de Las Casas um antecedente do gênero, que se constitui como tal precisamente enquanto Las Casas toma uma distância crítica da cultura na que ele mesmo nasceu – agora convertida em cultura de conquista – e a denuncia. Por outra parte, o ensaio latino-americano do século 18 tem uma enorme proximidade com o ensaio da Ilustração, e a riquíssima prosa da independência se nutre de autores como Voltaire, Rousseau, assim como também da prosa que começa a circular a partir da França revolucionária e das ex-colônias norte-americanas.

ECM – Há espaço para o ensaio no ambiente filosófico pós-moderno?
LW – Não só há espaço, senão que grande parte do modo como se conforma o pensamento pós-moderno é já, em si mesmo, ensaístico. Contudo, há várias mudanças importantes entre a concepção moderna do ensaio no que se refere ao estatuto de verdade e ficção, ou ao estatuto de subjetividade etc.; e, sobretudo, quanto ao conceito mesmo de verdade, que se transformou muito – de maneira excessiva – na pós-modernidade. Desde meu ponto de vista isso deve ser repensado. A partir do momento em que a crítica da cultura e dos valores passa a ser considerada, com pleno direito, como instância filosófica da maior importância, o ensaio deixa de ser algo auxiliar para se converter em central. Considero que com Nietzsche se abrem as comportas que dividiam filosofia e literatura, e o ensaio alcança uma nova etapa na qual já não se pode separar a dimensão epistemológica da dimensão criativa.

ECM – E quem são os grandes ensaístas hoje em dia?
LW – Aqueles que são capazes de levar o ensaio a dimensões criativas e críticas cada vez mais audazes e sugestivas. Aqueles que seguem tentando reunir mundos e tarefas neste momento de especialização e coisificação. Na América Latina contamos com figuras-chave como Borges, Lezama Lima, Sarduy, Paz, Zambrano, que estabeleceram novos vínculos e cruzes entre ensaio e ficção, ensaio e narrativa, ensaio e poesia, ensaio e filosofia. Ou narradores que a partir do romance se avizinharam abismalmente do ensaio, como Clarice Lispector. E entre aqueles que levaram a própria crítica a novas dimensões que superam em muito o exercício meramente profissional para honrar a leitura e a interpretação, como não pensar no próprio Antonio Candido ou em Ángel Rama, figuras que, ademais, começaram a construir pontes entre o Brasil e a América Espanhola. Penso no ensaio sociológico de Renato Ortiz. Nos cruzamentos entre arte, estética e literatura por parte de John Berger. No resgate da experiência estética por parte de Muñoz Molina. Nos luminosos ensaios críticos – que ele provocativamente chama “formas breves” – de Ricardo Piglia. Na relação entre ensaio, moral e crítica política de Tomás Segovia. Nos ensaios de poética histórica de Derek Walcott. E acaba de morrer minha admiradíssima Nadine Gordimer, grande novelista, grande ativista sul-africana contra o apartheid, e também grande ensaísta. E cito só uns escassos nomes de uma lista infinita, a partir dos textos que eu mesma mais frequento como leitora.

Pássaros Interiores – 08/02/2026

A Metamorfose

Renata Dini *

A Metamorfose[1], de Franz Kafka[2], é uma daquelas peças que nos deixa pensando muito depois de terminá-la. Não é apenas a história de um homem que acorda transformado em um inseto, mas uma profunda reflexão filosófica sobre a alienação, a identidade e o absurdo da existência humana.

De um ponto de vista existencialista, a transformação da personagem Gregor Samsa pode ser vista como uma metáfora da sensação de estar preso em uma vida que já não reconhecemos como nossa. Quantas vezes nos sentimos estranhos em nossas próprias peles, desconectados de quem somos, espectadores da nossa própria vida ou do que os outros esperam de nós? Gregor, ao se tornar um inseto, representa essa sensação extrema de desumanização, de se tornar algo que não se encaixa mais no mundo, nem mesmo na sua própria família.

Kafka nos confronta com uma ideia chave na filosofia existencialista: o isolamento do indivíduo. Gregor, na sua nova forma, é incapaz de se comunicar, de ser compreendido ou aceito. Este isolamento não é apenas físico, é existencial. Aqui é onde ressoa o pensamento de Jean-Paul Sartre[3] e a sua ideia de que “o inferno são os outros”. Gregor é rejeitado e temido, e apesar de permanecer o mesmo por dentro, sua aparência o condena à solidão e ao esquecimento.

Além disso, a Metamorfose também nos fala do absurdo, um conceito que Albert Camus[4] desenvolve na sua filosofia. A transformação do Gregor não tem explicação nem sentido, e esse é precisamente o ponto. Em um mundo absurdo, as coisas acontecem sem razão aparente, e nós, como seres humanos, somos forçados a enfrentá-las sem ter respostas. Gregor não questiona por que ele se tornou um inseto; ele simplesmente tenta se adaptar, continuar com sua vida. Mas, no final, o absurdo esmaga-o.

Gregor perde seu valor aos olhos da sua família quando não consegue mais trabalhar nem atender às expectativas sociais. Sua transformação física reflete uma verdade mais profunda: somos vulneráveis a perder nosso lugar no mundo quando deixamos de cumprir os papéis que nos impõem.

A Metamorfose é um alerta sobre a fragilidade da identidade e a desconexão entre o ser humano e o seu ambiente. Kafka nos lembra que, neste mundo cheio de normas, expectativas e julgamentos, a verdadeira tragédia é perder a conexão com a nossa própria humanidade, e nesse processo, ser esquecido ou descartado por aqueles que deveriam nos entender.

A peça de Kafka deixa-nos uma pergunta perturbadora: quanto da nossa identidade é definida pelos outros?

In Um Tonho/Tonha

* Professora Especialista na Rede de Taubaté.


[1] A Metamorfose (em alemão, Die Verwandlung) é uma novela escrita por Franz Kafka, publicada pela primeira vez em 1915.

[2] Franz Kafka (Praga, República Tcheca, 1883 — Klosterneuburg, Áustria, 1924): autor de romances e contos, considerado um dos escritores mais influentes do século XX. A maior parte de sua obra, como A MetamorfoseO Processo e O Castelo, está repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas.

[3] Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris, 1905 – 1980): filósofo, escritor e crítico, conhecido como representante do existencialismo. Defendia que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade.

[4] Albert Camus (Mondovi, 1913 – Villeblevin, 1960): escritor, poeta, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta franco-argelino. Atuou como jornalista militante envolvido na Resistência Francesa, situando-se próximo das correntes libertárias durante as batalhas morais do segundo pós-guerra. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Em seus trabalhos desenvolveu um humanismo baseado na consciência do absurdo da condição humana.

Reminiscências

Mário Quintana

A enchente de 1941. Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava. Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas adentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores?
Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas…

In “Sapato florido” (1948)

Camões, 500 Anos

José Paulo Cavalcanti

Luís Vaz de Camões veio da pequena nobreza – assim se dizia, na época, dos nobres sem casas nem títulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos, quando possível, às vezes em troca de gorjeta. Ou comida.

Era conhecido, pelas incontáveis rixas em que se metia, como Trinca-Fortes. Em uma delas, na noite da procissão de Corpus-Christi, golpeou com espada o pescoço de Gonçalo Borges, cárrego (responsável) dos arreios do rei. Acabou preso no tronco. Libertado por Carta Régia de Perdão, em 7 de março de 1553, teve que pagar quatro mil réis para caridade e foi obrigado a ir servir na Índia. Seria mudança definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais – Simão Vaz de Camões, capitão de nau; e Ana de Sá, dos Macedo de Santarém, doméstica.

Em torno dele, quase tudo é incerto. Sabe-se, dos serviços que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa – ou Coimbra, ou Santarém, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda que sugira começos de 1525).

Tendo a lei portuguesa 1540, de 02/02/1924, definido que teria sido em 05.02.1524, agora completando essa data 500 anos. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Camões, prior do Convento de Santa Cruz. Até que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas opções que lhe restavam.

Para cumprir aquela sentença de perdão embarcou pouco dias depois, em 24 de março, na poderosa armada do capitão-mor Fernão Álvares Cabral. Para Goa (Índia). Ali, naquele mundo para ele novo, sofreu todas as agruras. Em expedição a Ceuta, perdeu o olho direito numa batalha. Em 1558, naufragou na foz do rio Mekong – costa do Sião (hoje, Tailândia). Salvou-se despido, como todos os demais sobreviventes, tendo em uma das mãos os primeiros versos de seu Os Lusíadas. Nesse episódio teria morrido uma chinesa, a quem Camões deu o nome poético de Dinamene, e para quem depois escreveria uma série de poemas, entre eles o famoso Soneto 48:

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida, descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na terra sempre triste

Se lá no assento etéreo, onde subsiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

Foi Provedor dos defuntos nas partes da China, desempenhando suas funções com não muita lisura, é de justiça reconhecer. E, vez por outra, frequentaria prisões. Por dívidas. Ou rixas.  Como dizia o próprio Camões, “Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram”. Mas, sobretudo, nunca parou de escrever.

Em 1570, afinal, estava novamente de volta a Lisboa. Com as carências financeiras de sempre. Segundo se conta, sobreviveu durante algum tempo graças ao fiel Jau, trazido das Molucas. Esse escravo esmolava, de noite, pedindo pão para seu mestre. Importante é que Os Lusíadas avançava. Sob o patrocínio de d. Manuel de Portugal, devotou-se então à sagração de seu país – naquela que é considerada, consensualmente, a mais bela epopéia do século XVI.

edição princeps – assim se diz das primeiras edições de um livro – foi impressa na tipografia de António Gonçalves, em Lisboa, no ano de 1572. Com privilégio real de impressão por 10 anos e publicada com um benévolo (e corajoso) parecer censório de frei Bartolomeu Ferreira, sem data. Terá tido também licença da Mesa Inquisitorial – que, todavia, não foi impressa. O aparato paratextual é simples, 8.816 versos e 1.102 estrofes divididas em 10 cantos. Utilizando a divisão da divina Comédia, de Dante – que assim tem, como cantos, seus 100 livros. Há, hoje, cerca de 25 exemplares ainda existentes, em bibliotecas ou nas mãos de colecionadores. Talvez menos que 10 completos.

Até fins do século XIX, se acreditava ter havido duas edições princeps. Um mito devido a Manuel Faria e Souza – que (em 1639), ao comentar Os Lusíadas, confrontou dois volumes daquele mesmo ano de 1572; e verificou haver, neles, pequenas diferenças. Depois se comprovando terem sido bem mais que duas. Restando hoje assente que assim ocorreu pelo desejo de Camões, ou seu editor, em corrigir pequenas incorreções das impressões anteriores. Dando-se que, em alguns casos, foram sendo aproveitados conjuntos de páginas já impressas, antes, e não utilizadas. Fazendo-se, as correções, nas novas páginas impressas. Uma explicação que só se pode compreender pelos rudimentares sistemas de impressão daquela época.

Apesar de numerosos indicativos dessa edição princeps na comparação com as demais, e curiosamente, o que a identifica é um pelicano, à primeira página, com o bico virado para a esquerda do leitor. Além do pelicano, também um detalhe no terceiro verso da primeira estrofe, que começa por “E entre”; enquanto, nas versões corrigidas, começa por “Entre”. Essas edições de 1572 tornaram-se conhecidas, por isso, como “Ee” e “E”.

Camões tinha com ele, ao morrer, aquela que acabou tida como a primeira edição autêntica, deixada ao frei Joseph Índio, que o acompanhava num hospital de Lisboa. Esse volume é conhecido como Holland House – por ter estado em casa do general Lord Holland, em Londres, a partir de 1812 e por mais de cem anos.

Outra edição famosa, em Portugal, é a segunda ‒ conhecida como dos piscos. Surgida em 1584, dois anos após o fim do prazo do alvará que protegia a primeira (de 1572). Impressa pela tipografia Manuel de Lira, em Lisboa, e com licença do mesmo frei Bartolomeu Ferreira – responsável pela autorização da edição princeps. O nome jocoso dado à edição vem de uma citação, nos Lusíadas (Canto III, 65), sobre a “piscosa Cizimbra”. 

Sezimbra é uma vila portuguesa no distrito de Setúbal. Abundante em peixes, bom lembrar. Trata-se da primeira edição comentada de Os Lusíadas. Explicando a citação, o comentador, como referência aos pássaros que ali se juntam em passagem para a África, provavelmente se referindo ao Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus Rubecula).

Camões segue a trilha de outras epopéias do passado.  Sobretudo a Eneida, de Virgílio; o que se vê até na comparação dos versos iniciais dos poemas: Canto as armas e o varão, Virgílio; e As armas e os Barões assinalados, Camões. Também a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Bem como a divina Comédia, de Dante. Além de numerosas epopéias surgidas em Portugal, no mesmo século XVI de Os Lusíadas, mas antes dele – como as de André de Resende, Manuel da Costa ou José de Anchieta; e manuscritos que circularam, antes de 1572, como os de António Ferreira e Jerónimo Corte-Real.

Nele temos o passado, com a exaltação das conquistas em que o povo português foi muito além do Mar Tenebroso. O presente, com o lamento pelo abandono das terras africanas por Portugal – de Safim a Azanos, de Azila a Alcácer Cequer; sem contar a ameaça turca, conjurada só na batalha naval de Lepanto, em 7 de outubro de 1571. Mas é sobretudo a antevisão de um futuro grandioso, na linha da Utopia do Quinto Império.

 “Para servir-vos, braço às armas feito; Para cantar-vos, mente às Musas dada” (Os Lusíadas, Canto X, 155). Pouco antes, em Desenganos, escreveu “Nascemos para morrer/ Morremos para ter vida/ Em ti morrendo”. Assim foi. Luís Vaz de Camões morreria em 10 de junho de 1580, pouco depois do desastre de Alcácer Quibir – em que desapareceu d. Sebastião, o Desejado, e Portugal passou a ter um rei espanhol. Foi enterrado na igreja de Santa Ana e seus restos acabaram transferidos, em 1894, ao mosteiro dos Jerônimos, onde repousam num túmulo esculpido em mármore bem na entrada. Consta que disse, ao morrer, “Ao menos morro com a pátria”.

ABL – Academia Brasiçleira de Letras – 03/2024.

Prosodia

Oscar Conde

busco infeliz las huellas
de mi infancia. no queda casi nada:
una pilita de soldados de plástico,
la letra vacilante de mis compañeros
de séptimo haciéndome promesas
cien por ciento incumplidas,
la risa desafiante de mi tía Teresa
en la foto de un tiempo en que la creía eterna.

busco entonces vestigios de mi juventud.
busco y encuentro gotas de Spinetta,
una herradura del caballo apurado de la revolución,
una mancha de mate en el manual de Lesky,
letras de Brassens en castellano, una florcita
minúscula guardada en la página
en la que Manuel Mandeb conoce
a la primera novia de su mejor amigo.
en semejante empresa
no encuentro un solo rastro
de la chica que tanto me gustaba en la escuela,
de las manos con artroses de mamá, del torneo de ajedrez que a los quince gané sin merecerlo.

tampoco encuentro nada que me recuerde
lo que vino después:
amores puestos a prueba sin fortuna,
una voluntad obcecada y distraída,
un par de reportajes en la tele
dando respuestas que ni sé ni me interesan.

años y años, unos iguales a los otros,
en los que expliqué
con el mayor entusiasmo
los nombres de los meses en latín,
el aspecto verbal, las distintas
concepciones del destino en Grecia,
la construcción hinchado las pelotas,
el método inductivo, la diferencia
entre raíz y tema, la cuestión homérica,
la etimología de Júpiter, el modo
de citar bibliografía,
la postura reaccionaria de Antígona,
el rotacismo, la relativa
seriedad de la democracia ateniense.

en esos años siempre pensé
que estaba haciendo lo que quería
con la vida. y en cambio
era ella
la que un día tras otro
iba aplicando su cincel a mis formas.
uno puede conocer muy bien
la prosodia,
pero nunca decide del todo
dónde vienen a caer
los acentos.

Gramma – Revista de la Escuela de Letras de la Facultad de Filosofía, Letras y Estudios Orientales (V. 23, Nº 49, 2012)

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

23 de Abril

Paco Editorial

O Dia Mundial do Livro é um evento organizado pela UNESCO e comemorado todo dia 23 de abril. A data serve para promover o prazer e a importância da leitura dentro da sociedade como forma de conhecimento.

Além de ser uma comemoração em defesa dos hábitos de leitura, o dia também comemora a proteção dos direitos autorais e a publicação de livros como uma maneira de acesso a estes materiais.

Dia Mundial do Livro

A data escolhida para homenagear a literatura foi feita como uma maneira de recordar e também homenagear dois grandes autores mundiais que morreram em 23 de abril de 1616, William Shakespeare e Miguel de Cervantes.

O autor inglês William Shakespeare nasceu em Stanford, Inglaterra, na mesma data que veio a falecer posteriormente. William ficou famoso por ter escrito peças de teatro que se tornaram clássicos mundiais, como Romeu e Julieta, e Hamlet.

Mesmo tendo sido um escritor do século XVII, sua obra foi imortalizada em diversas adaptações cinematográficas, incluindo a animação da Disney “O Rei Leão” e centenas de tentativas em adaptar a história de amor entre Romeu e Julieta para os tempos atuais.

Shakespeare, que também era poeta, escreveu 38 peças e mais de 150 sonetos durante sua vida.

Um pouco antes de Shakespeare, nascia na Espanha o escritor Miguel de Cervantes Saavedra, na província de Alcalá de Henares. A primeira grande obra do autor foi o soneto “A la muerte de la reina doña Isabel de Valois”, supostamente publicado em 1569.

Entretanto, Cervantes só foi ganhar notoriedade em 1906, quando publicou o clássico Don Quixote pela primeira vez. A obra se tornou uma grande referência a literatura espanhola e é usado como indicação de leitura durante o estudo da língua, tanto na Espanha como para alunos estrangeiros que buscam aperfeiçoar o idioma.

Assim como Shakespeare, Cervantes teve sua obra imortalizada em diversas adaptações cinematográficas, sendo a mais recente de 2007 intitulada “DonKey Xote”, uma animação dirigida pelo espanhol José Pozo.

A imortalidade de suas obras fez com que fosse possível o acesso a estes clássicos da literatura séculos mais tarde, impulsionando jovens a descobrirem um pouco mais sobre a cultura literária, além de renovar a ideia de preservação destas insubstituíveis contribuições ao progresso social da humanidade.

Mesmo com o falecimento tendo ocorrido em 1616, o Dia Mundial do Livro foi apenas instituído em 1995, durante a realização da XXVIII Conferência Geral da UNESCO.

Todos os anos, escritores e editoras ao redor do mundo se reúnem para organizar eventos neste dia e promover não só seus trabalhos, mas a esperança de que um livro ainda possa ser capaz de mudar o destino de alguém.

Direito de Autor

No dia 23 de abril também se comemora a conquista pelo direito autoral. A medida visa proteger a imagem do autor e da obra para que ela possa usufruir dos benefícios comerciais e legais da exploração de suas criações.

O direito de autor se divide em dois conceitos: direitos morais e patrimoniais. Para efeitos do primeiro, é assegurado a autoria da criação da obra intelectual, sendo intransferível e irrenunciável.

Já os direitos patrimoniais estão relacionados à exploração comercial da obra intelectual, podendo ter o caráter de transferência ou de cessão de direitos a terceiros por meio de um contrato de licenciamento.

No Brasil, projetos audiovisuais que derivem da adaptação de obras publicadas devem apresentar o contrato de cessão de direitos para a exploração comercial no ato de inscrição do projeto em editais públicos de incentivo à cultura, sujeito a posterior análise por órgãos competentes.

A primeira lei de proteção aos direitos do autor entrou em vigor ainda em 1710 e foi sancionada pela Rainha Ana da Inglaterra. Até então, a lei dizia respeito apenas a livros, mais tarde, em 1735, sofreu sua primeira alteração para incluir também desenhos.

O aperfeiçoamento das leis se seguiu ao longo dos séculos e começaram a ser adotados também em outros países da Europa e América.

Domínio Público

Muitas dúvidas rondam a questão do domínio público, muitos realizadores que não podem prover recursos para pagar pela exploração comercial de obras mais atuais buscam este método para fazer suas adaptações.

É importante frisar que o domínio público se torna disponível após um período posterior a morte do autor.

A nível mundial, este prazo é de no mínimo 50 anos a contar do ano seguinte a morte do autor e está previsto pela Convenção de Berna, relativa à proteção de obras literárias e artísticas.

Mesmo que seja estipulado o mínimo de 50 anos para que o domínio público entre em vigor, diversos países têm suas próprias legislações a respeito do tema. No Brasil e em alguns países europeus, a espera é de 70 anos, após esse tempo, apenas os direitos morais devem continuar a ser respeitados.

A cessão de direitos antes de completar o prazo estipulado por lei

Caso os realizadores da possível adaptação queiram utilizar a cessão de direitos patrimoniais antes do prazo de 70 anos, o acordo deve ser realizado junto aos familiares mais próximos do autor, como filhos ou cônjuges que ainda estejam vivos.

Na falta destes familiares, deve ser contada a pessoa responsável pela preservação da obra do autor em questão.

Deve-se ter em mente, no entanto, que estas pessoas podem se negar a ceder os direitos da obra ou até mesmo exigir participar do processo criativo da adaptação como forma de cuidar dos direitos morais póstumos.

Toda decisão e acordo posteriormente feitos devem ter o aparo jurídico de um advogado especialista em direitos patrimoniais e de propriedade intelectual, a fim de que ambas as partes sejam beneficiadas da mesma maneira.

O direito de autor é reconhecido como um direito humano fundamental na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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Acreditamos que o acesso à leitura deve ser cada vez mais simplificado, abrangente e transformador.

Paco Editorial – 23/04/2020