A IA não está substituindo a inteligência humana. Está revelando quem realmente pensa

José Alberto Vigueras Moreno

Referência em IA aplicada à Docência e Pesquisa Científica

A IA não substitui a inteligência humana. Ela revela quem realmente sabe pensar. Uma análise baseada na ciência da aprendizagem e na educação contemporânea.

A inteligência artificial não está criando uma crise da inteligência humana. Ela está tornando essa crise visível.

Há poucos anos, a principal preocupação sobre a inteligência artificial era saber quando ela substituiria determinadas profissões. Hoje, a pergunta mudou.

A questão realmente importante não é mais “A IA vai substituir os seres humanos?” A pergunta passou a ser outra, muito mais desconfortável:

O que acontece quando dois profissionais utilizam exatamente a mesma inteligência artificial, mas um produz conhecimento extraordinário enquanto o outro apenas reproduz respostas previsíveis?

Essa diferença não está na tecnologia. Está na inteligência humana. E talvez seja justamente esse o maior fenômeno educacional da última década. A inteligência artificial não está substituindo a capacidade de pensar. Ela está expondo quem realmente desenvolveu essa capacidade ao longo da vida.

Durante décadas, confundimos desempenho escolar com aprendizagem, memorização com compreensão e acesso à informação com construção de conhecimento. A IA generativa desmontou essa ilusão em poucos meses.

Hoje, qualquer estudante pode solicitar ao ChatGPT uma explicação sobre física quântica, um resumo de Paulo Freire, um plano de aula, um algoritmo em Python ou uma revisão sistemática inicial sobre determinado tema.

Mas existe uma pergunta que a tecnologia não consegue responder sozinha:

Quem é capaz de avaliar criticamente aquilo que acabou de receber? É exatamente aqui que começa a verdadeira inteligência.

Quando todos têm acesso à mesma IA, a diferença passa a ser humana

Durante muito tempo acreditou-se que o diferencial competitivo seria possuir mais informação. Esse paradigma deixou de existir. A informação tornou-se abundante, instantânea e praticamente gratuita.

O novo diferencial passou a ser outro:

A capacidade de formular boas perguntas, interpretar respostas, identificar limitações, integrar diferentes perspectivas e construir novos significados.

Em outras palavras: A IA democratizou o acesso às respostas. Mas tornou muito mais visível a qualidade das perguntas. Essa mudança parece simples.

Não é.

Ela representa uma transformação profunda na própria natureza da aprendizagem. Na psicologia cognitiva, aprender nunca significou acumular informações. Aprender sempre foi reorganizar estruturas mentais.

Jean Piaget descreveu esse processo por meio da assimilação e acomodação. O conhecimento novo não substitui automaticamente o anterior; ele precisa ser integrado aos esquemas cognitivos existentes, gerando reorganizações sucessivas.

Décadas depois, Lev Vygotsky demonstrou que o desenvolvimento intelectual acontece nas interações sociais e nas mediações culturais. Hoje, pela primeira vez na história, uma dessas mediações pode ser uma inteligência artificial.

Isso muda completamente o cenário educacional. A IA deixa de ser apenas uma ferramenta tecnológica, ela passa a funcionar como um novo mediador cognitivo. Mas existe um detalhe frequentemente ignorado. A qualidade da mediação depende da qualidade do sujeito que interage com ela.

Uma IA extraordinária nas mãos de alguém sem pensamento crítico continuará produzindo resultados superficiais. Por outro lado, um indivíduo intelectualmente preparado transforma a mesma tecnologia em um poderoso amplificador da própria inteligência.

É por isso que duas pessoas utilizando exatamente o mesmo sistema obtêm resultados radicalmente diferentes. O fator decisivo nunca foi o algoritmo. Sempre foi o ser humano.

A IA amplifica competências que já existem. Ela dificilmente cria competências que nunca foram desenvolvidas.

O maior equívoco da educação atual

Talvez o maior erro que estejamos cometendo seja continuar preparando estudantes para responder perguntas. Enquanto isso, a inteligência artificial aprende a respondê-las cada vez melhor. Essa constatação deveria provocar uma profunda revisão curricular.

Benjamin Bloom publicou sua famosa taxonomia em 1956 organizando objetivos educacionais em níveis progressivos: lembrar, compreender, aplicar, analisar, avaliar e criar. Durante décadas, boa parte da educação permaneceu concentrada justamente nos níveis inferiores.

Memorizar, Reproduzir, Executar procedimentos conhecidos. A IA generativa tornou essas competências facilmente automatizáveis, não porque elas deixaram de ser importantes, mas porque deixaram de ser suficientes. Hoje, lembrar conteúdos é uma habilidade compartilhada entre humanos e máquinas. Criar novos conhecimentos continua sendo profundamente humano.

É exatamente por isso que os níveis superiores da Taxonomia de Bloom tornaram-se ainda mais relevantes na era da inteligência artificial.

Analisar, Avaliar, Julgar evidências, Construir argumentos, Resolver problemas inéditos, Criar soluções originais. Essas competências não desapareceram. Ao contrário, nunca foram tão valorizadas.

A IA não reduz o pensamento. Ela expõe sua ausência.

Existe uma narrativa bastante difundida segundo a qual a inteligência artificial estaria tornando as pessoas menos inteligentes. Essa afirmação parece intuitiva, mas talvez esteja incompleta.

A literatura recente sobre Cognitive Offloading (descarregamento cognitivo) mostra que delegar determinadas tarefas à tecnologia pode liberar recursos mentais para atividades cognitivas de maior complexidade. Entretanto, isso só ocorre quando existe monitoramento metacognitivo, autorregulação da aprendizagem e capacidade crítica para validar as respostas produzidas.

Sem essas competências, a delegação transforma-se em dependência, com elas, transforma-se em ampliação cognitiva.

Essa distinção é fundamental. A IA não empobrece automaticamente o pensamento, ela apenas torna muito mais evidente quem pensa antes de perguntar, durante a interação e depois de receber uma resposta.

Barry Zimmerman, um dos principais pesquisadores da Aprendizagem Autorregulada (Self-Regulated Learning), demonstrou que estudantes capazes de planejar, monitorar e avaliar o próprio processo de aprendizagem obtêm resultados significativamente superiores.

Curiosamente, essas mesmas competências parecem explicar por que alguns profissionais conseguem transformar a IA em uma parceira intelectual, enquanto outros permanecem dependentes de respostas prontas.

A tecnologia não criou essa diferença. Ela apenas a tornou impossível de esconder.

Na era da IA, a vantagem competitiva deixou de ser saber respostas. Passou a ser saber pensar melhor do que a máquina pode pensar por você.

Da mediação pedagógica à cognição aumentada: o que a ciência já está mostrando

Se existe uma característica comum entre as grandes revoluções educacionais, é que nenhuma delas começou pela tecnologia. Começaram por uma mudança na compreensão sobre como os seres humanos aprendem.

  • Foi assim com Dewey ao defender que aprender significa experimentar e refletir sobre a experiência.
  • Foi assim com Piaget ao demonstrar que o conhecimento é construído ativamente pelo sujeito.
  • Foi assim com Vygotsky ao mostrar que toda aprendizagem é profundamente mediada pelas interações sociais e culturais.

E talvez estejamos vivendo agora uma nova mudança paradigmática. Não porque surgiu uma tecnologia extraordinária, mas porque surgiu um novo tipo de mediação cognitiva.

A inteligência artificial passou a ocupar um espaço que, até poucos anos atrás, era exclusivo dos livros, professores, colegas, bibliotecas e buscadores da internet.

  • Ela dialoga.
  • Questiona.
  • Explica.
  • Resume.
  • Simula.
  • Contrapõe argumentos.
  • Personaliza exemplos.
  • Constrói hipóteses.

Esse comportamento faz com que muitos pensem que a IA está “ensinando”. Na realidade, ela está oferecendo uma nova forma de mediação, a aprendizagem continua acontecendo dentro do cérebro humano.

Essa distinção parece sutil, mas é enorme porque desloca o foco da pergunta.

A questão deixa de ser:

O que a IA consegue fazer?

E passa a ser:

Que tipo de pensamento ela desperta em quem a utiliza?

Essa mudança aproxima a discussão contemporânea daquilo que Jerome Bruner defendia há décadas.

Para Bruner, ensinar nunca significou transmitir respostas. Ensinar significa criar condições para que o aprendiz descubra relações, formule hipóteses e organize significados.

Uma IA utilizada apenas para entregar respostas reduz esse potencial. Uma IA utilizada para provocar reflexão amplia exatamente aquilo que Bruner chamava de aprendizagem por descoberta.

O verdadeiro poder da IA não está nas respostas que produz, mas nas perguntas intelectuais que ela consegue provocar.

A ciência dos últimos cinco anos começa a convergir

Entre 2021 e 2026, centenas de estudos passaram a investigar os efeitos da IA generativa sobre aprendizagem, produtividade e cognição. Embora os resultados ainda estejam em construção, um padrão começa a aparecer de forma consistente.

Os ganhos produzidos pela IA não são homogêneos, eles dependem fortemente das competências cognitivas prévias do usuário. Em outras palavras, a mesma ferramenta produz impactos completamente diferentes em pessoas diferentes.

Pesquisas conduzidas em universidades da Europa, Estados Unidos e Ásia mostram que estudantes com maior capacidade metacognitiva utilizam a IA para aprofundar análises, comparar perspectivas, revisar argumentos e produzir sínteses mais sofisticadas.

Já estudantes com baixa autorregulação tendem a aceitar respostas sem validação, reduzindo o esforço cognitivo necessário para compreender conceitos complexos. Essa diferença dialoga diretamente com a Teoria da Carga Cognitiva, desenvolvida por John Sweller.

Durante décadas, essa teoria mostrou que a memória de trabalho possui capacidade limitada. Uma boa instrução reduz cargas desnecessárias para liberar recursos mentais destinados ao raciocínio profundo.

  • A IA pode desempenhar exatamente esse papel., ela pode automatizar tarefas repetitivas.
  • Pode sintetizar grandes volumes de informação.
  • Pode estruturar ideias iniciais.
  • Pode acelerar buscas bibliográficas.
  • Pode apoiar revisões linguísticas.

Mas existe um limite.

  • A tecnologia reduz a carga operacional.
  • Ela não substitui a construção do significado.
  • Quem interpreta continua sendo o ser humano.
  • Quem estabelece relações continua sendo o ser humano.
  • Quem julga evidências continua sendo o ser humano.
  • Quem produz conhecimento original continua sendo o ser humano.

O paradoxo da autonomia

Existe outro fenômeno curioso acontecendo nas escolas e universidades. Nunca tivemos tantas ferramentas capazes de promover autonomia. Ao mesmo tempo, nunca observamos tantos estudantes inseguros para decidir sem apoio externo.

Esse paradoxo merece atenção.

A facilidade de obter respostas pode criar uma falsa sensação de competência. Saber acessar informação não significa compreendê-la, muito menos significa ser capaz de aplicá-la em situações inéditas.

Paulo Freire alertava que a educação libertadora nasce quando o sujeito deixa de repetir discursos e passa a problematizar a realidade. Essa ideia torna-se ainda mais atual diante da IA.

Se utilizarmos a tecnologia apenas para acelerar respostas, corremos o risco de fortalecer exatamente aquilo que Freire criticava: uma educação bancária digital, na qual o estudante acumula informações sem produzir consciência crítica. Entretanto, quando a IA é utilizada para ampliar o diálogo, confrontar perspectivas, construir argumentos e fomentar investigação, ela pode fortalecer uma educação problematizadora.

Perceba a diferença. Não é a ferramenta que define o modelo pedagógico. É a intencionalidade didática. A mesma IA pode servir tanto para automatizar o pensamento quanto para expandi-lo.

Talvez estejamos utilizando o conceito errado

Existe algo que me incomoda há bastante tempo. Quase todas as discussões falam sobre “uso da IA”.

Na minha percepção, essa expressão já se tornou insuficiente, ela reduz a tecnologia à condição de ferramenta, mas a IA contemporânea faz muito mais do que executar comandos.

  • Ela participa do processo cognitivo.
  • Ela influencia decisões.
  • Sugere caminhos.
  • Questiona hipóteses.
  • Expande possibilidades.

Por isso proponho que passemos a discutir um conceito mais adequado:

Cognição Aumentada.

Não se trata de inteligência artificial substituindo inteligência humana, trata-se de inteligência humana ampliando sua capacidade de pensar por meio de sistemas inteligentes.

Essa mudança conceitual altera completamente o foco da educação. O objetivo deixa de ser ensinar estudantes a utilizar IA e passa a ser formar indivíduos capazes de pensar melhor com ela. É uma diferença enorme. Porque desloca o centro da aprendizagem da tecnologia para a cognição humana.

Quem dominar apenas a IA dependerá dela. Quem desenvolver a própria inteligência fará da IA uma extensão do seu pensamento.

O Connectivismo ganha uma nova dimensão

George Siemens propôs, em 2005, que aprender significava estabelecer conexões entre pessoas, informações e redes. Na época, essa teoria respondia ao crescimento da internet.

Hoje, ela ganha uma nova camada. As conexões não acontecem apenas entre humanos, passam a incluir sistemas inteligentes capazes de participar ativamente do processo de construção do conhecimento. Isso não elimina o papel do professor, muito pelo contrário. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias, mais importante se torna a mediação pedagógica, o professor deixa de ser apenas fonte de informação e transforma-se em arquiteto de experiências cognitivas. É ele quem ajuda os estudantes a desenvolver critérios para avaliar respostas, reconhecer vieses, identificar limitações e formular perguntas melhores.

Em um mundo onde respostas são abundantes, ensinar a perguntar tornou-se uma competência central.

A nova literacia em IA

É exatamente aqui que nasce aquilo que venho chamando de Literacia em Inteligência Artificial.

  • Ela não consiste em dominar prompts.
  • Também não consiste em conhecer plataformas.
  • Muito menos em acompanhar cada novo modelo lançado.

Literacia em IA significa desenvolver competências intelectuais para pensar criticamente em ambientes mediados por inteligência artificial.

Isso envolve:

  • formular problemas relevantes;
  • elaborar perguntas investigativas;
  • validar evidências;
  • reconhecer alucinações e vieses algorítmicos;
  • integrar conhecimentos de diferentes áreas;
  • produzir sínteses originais;
  • tomar decisões éticas e fundamentadas.

Perceba que nenhuma dessas competências é exclusivamente tecnológica. Todas são profundamente humanas. É justamente por isso que elas se tornam ainda mais valiosas.

O futuro da educação talvez dependa da pergunta errada que estamos fazendo

Ainda insistimos em perguntar: “Como ensinar os estudantes a usar IA?”

Talvez a pergunta mais importante seja outra. “Como formar seres humanos cuja inteligência seja potencializada — e não substituída — pela IA?”

Essa mudança de perspectiva redefine o papel das escolas, universidades e políticas públicas.

  • A tecnologia continuará evoluindo.
  • Modelos mais poderosos surgirão.
  • Interfaces ficarão mais intuitivas.
  • A automação avançará.

Mas existe algo que continuará exclusivamente humano.

  • A capacidade de atribuir significado.
  • Interpretar contextos.
  • Exercer julgamento.
  • Questionar consensos.
  • Criar novos paradigmas.

Nenhum algoritmo faz isso de forma autônoma. Ele apenas reorganiza probabilidades a partir daquilo que nós, humanos, produzimos. Por isso, talvez a maior contribuição da inteligência artificial para a educação seja paradoxal.

Ela nos obriga a redescobrir o valor da inteligência humana, não porque a tecnologia seja limitada, mas porque ela evidencia, diariamente, que pensar continua sendo uma competência insubstituível.

Uma provocação para encerrarmos esta conversa

Talvez o maior erro da educação contemporânea não seja introduzir inteligência artificial nas salas de aula. O maior erro seria acreditar que ensinar IA é suficiente, por tanto, o verdadeiro desafio continua sendo o mesmo de sempre.

Formar pessoas capazes de pensar com rigor, curiosidade, autonomia, ética e criatividade.

Se conseguirmos fazer isso, a IA deixará de ser uma ameaça. Tornar-se-á a maior amplificadora da inteligência humana que já construímos. Caso contrário, ela apenas ampliará nossa dependência intelectual.

E essa escolha continua sendo exclusivamente nossa.

A inteligência artificial não está decidindo o futuro da educação. Ela está revelando quais modelos educacionais já não conseguem formar pessoas que pensem por si mesmas.


Para refletir

Se a IA responde cada vez melhor às perguntas, será que o verdadeiro currículo do século XXI não deveria ensinar, antes de tudo, a formular perguntas que nenhuma máquina consegue criar sozinha?

Como você acredita que a inteligência artificial está transformando a forma de pensar — e não apenas a forma de aprender — nas escolas e universidades?


REFERÊNCIAS

Anderson, L. W., & Krathwohl, D. R. (Eds.). (2001). A taxonomy for learning, teaching, and assessing: A revision of Bloom’s taxonomy of educational objectives. Longman.

Bjork, R. A., Dunlosky, J., & Kornell, N. (2013). Self-regulated learning: Beliefs, techniques, and illusions. Annual Review of Psychology, 64, 417–444. https://doi.org/10.1146/annurev-psych-113011-143823

Bruner, J. S. (1966). Toward a theory of instruction. Harvard University Press.

Dwivedi, Y. K., Kshetri, N., Hughes, L., Slade, E. L., Jeyaraj, A., Kar, A. K., Baabdullah, A. M., Koohang, A., Raghavan, V., Ahuja, M., Albanna, H., Albashrawi, M., Al-Busaidi, A. S., Balakrishnan, J., Barlette, Y., Basu, S., Bose, I., Brooks, L., Buhalis, D., … Wright, R. (2023). So what if ChatGPT wrote it? Multidisciplinary perspectives on opportunities, challenges and implications of generative conversational AI for research, practice and policy. International Journal of Information Management, 71, Article 102642. https://doi.org/10.1016/j.ijinfomgt.2023.102642

Engelbart, D. C. (1962). Augmenting human intellect: A conceptual framework. Stanford Research Institute.

Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra.

Holmes, W., Porayska-Pomsta, K., Holstein, K., Sutherland, E., Baker, T., Shum, S. B., Santos, O. C., Rodrigo, M. M. T., Cukurova, M., Bittencourt, I. I., & Koedinger, K. R. (2022). Ethics of AI in education: Towards a community-wide framework. International Journal of Artificial Intelligence in Education, 32(3), 504–526. https://doi.org/10.1007/s40593-021-00239-1

Kasneci, E., Sessler, K., Küchemann, S., Bannert, M., Dementieva, D., Fischer, F., Gasser, U., Groh, G., Günnemann, S., Hüllermeier, E., Krusche, S., Kutyniok, G., Michaeli, T., Nerdel, C., Pfeiffer, F., Poquet, O., Sailer, M., Schmidt, A., Seidel, T., & Kasneci, G. (2023). ChatGPT for good? On opportunities and challenges of large language models for education. Learning and Individual Differences, 103, Article 102274. https://doi.org/10.1016/j.lindif.2023.102274

Ogunleye, B., Zakariyyah, K. I., Ajao, O., Olayinka, O., & Sharma, H. (2024). A systematic review of generative AI for teaching and learning practice. Education Sciences, 14(6), Article 636. https://doi.org/10.3390/educsci14060636

Piaget, J. (1972). The psychology of the child. Basic Books.

Shneiderman, B. (2022). Human-centered AI. Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/oso/9780192845290.001.0001

Siemens, G. (2005). Connectivism: A learning theory for the digital age. International Journal of Instructional Technology and Distance Learning, 2(1), 3–10.

Sweller, J. (1988). Cognitive load during problem solving: Effects on learning. Cognitive Science, 12(2), 257–285. https://doi.org/10.1207/s15516709cog1202_4

UNESCO. (2021). Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381137

UNESCO. (2023). Guidance for generative AI in education and research. UNESCO. https://doi.org/10.54675/EWZM9535

Vygotsky, L. S. (1978). Mind in society: The development of higher psychological processes. Harvard University Press.

Zimmerman, B. J. (2002). Becoming a self-regulated learner: An overview. Theory Into Practice, 41(2), 64–70. https://doi.org/10.1207/S15430421TIP4102_2

Zawacki-Richter, O., Marín, V. I., Bond, M., & Gouverneur, F. (2019). Systematic review of research on artificial intelligence applications in higher education: Where are the educators? International Journal of Educational Technology in Higher Education, 16, Article 39. https://doi.org/10.1186/s41239-019-0171-0


Nota do Autor: Este texto e imagem foram desenvolvidos com apoio da IA, sob minha concepção, supervisão, validação científica e revisão integral. Todo o conteúdo e suas interpretações são de minha exclusiva responsabilidade.

In Newsletter #6 – LinkedIn

Literatura e Arte

Two people in a gallery looking at a urinal on a pedestal labeled 'Font'

Ernani Terra

A definição mais comum de literatura é que se trata de uma forma de arte que tem por matéria-prima a palavra. Essa definição, no entanto, parece não resolver o problema de se conceituar com precisão o que é literatura, na medida em que leva a uma discussão mais ampla: o que é arte?

Nossa posição vai ao encontro do que postula Vincente Jouve na obra Por que estudar literatura? quando afirma que “abordar a literatura como ‘arte da linguagem’ supõe ter antes definido a noção de ‘arte’. No entanto, não existe consenso neste ponto”.

A palavra arte provém do latim ars e corresponde à palavra grega techné, que em português aparece em palavras como técnica, tecnologia; conhecer a origem da palavra, nesse caso, não resolve o problema. Se há certo consenso em classificar as pinturas de Velázquez, Goya e Picasso e as músicas compostas por Beethoven, Bach e Mozart como arte, a situação se complica quando se trata de uma pintura rupestre, de cantos indígenas ou folclóricos. Mas não precisamos nos reportar a manifestações artísticas primitivas para ver que o conceito de arte é problemático.

A fonte, de Marcel Duchamp, um mictório branco de porcelana, exposto de maneira invertida, é uma obra de arte? Se o mictório estivesse em um banheiro masculino, seria considerado arte? O fato de estar exposto em um museu faz dele uma obra de arte?

Uma obra de arte é um objeto semiótico. Numa definição simples e provisória, um objeto semiótico é um signo, ou seja, algo que comunica alguma coisa para alguém, resultante de uma relação de pressuposição entre dois planos, o da expressão (o significante) e o do conteúdo (o significado), denominada semiose. O plano da expressão contém os elementos, apreendidos pela percepção, que tornam possível o aparecimento do conteúdo, vale dizer, os significados só existem graças a uma expressão que os manifesta, ou, para usar um antigo ditado, nada existe na mente que não tenha passado pelos sentidos.

Oscar Wilde, o célebre autor de O retrato de Dorian Gray, em um de seus aforismos, afirma: “Toda arte é completamente inútil”. O leitor deve estar estranhando; se a arte é inútil e a literatura é uma arte, por que ler romances e poemas?

Reflitamos: nem sempre o primeiro sentido da palavra que nos vem à mente corresponde ao que o autor empregou. Inútil é aquilo que não é útil. E o que significa útil? Nada mais, nada menos, segundo o dicionário Houaiss, do que aquilo “que pode ter ou tem algum uso; que serve ou é necessário para algo”. Ora, o que Wilde afirmou é que a arte não tem caráter utilitário, como um casaco, uma panela, um lápis. Não nos apropriamos de uma obra de arte para fazer com ela alguma coisa, mas simplesmente para fruí-la; por isso, a arte é inútil. Um casaco foi feito para nos proteger; uma panela, para cozinhar; um lápis, para escrever; mas obras como Fausto, de Goethe, Guernica, de Picasso, e a 9ª Sinfonia, de Beethoven foram feitas não para serem usadas, mas para serem fruídas.

Lembre-se: o mictório de Duchamp não foi exposto para ser usado, mas para ser apreciado. Os exemplos citados nos levam a uma outra reflexão: casacos, panelas e lápis são objetos produzidos em série e anônimos, enquanto Fausto, Guernica e a 9ª Sinfonia são objetos únicos e identificados a um autor, Goethe, Picasso e Beethoven, respectivamente.

O leitor poderá contra-argumentar que há vários exemplares de Fausto, várias gravações feitas por orquestras diferentes da 9ª Sinfonia disponíveis no Spotify, várias gravuras de Guernica. De fato, mas trata-se de reproduções de uma obra única feitas por processos industriais. Há várias reproduções da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, que podem ser adquiridas por qualquer pessoa a um preço acessível. Mas a obra de arte Mona Lisa, de Da Vinci, é única e está no Museu do Louvre em Paris e não tem preço.

Evidentemente, há teorias que postulam que a arte não é apenas para ser fruída. Alguns afirmam que a arte deve ter um caráter pedagógico. As igrejas antigas medievais apresentavam pinturas na parede que reproduziam a paixão de Cristo; considerando-se que grande parte dos fiéis era analfabeta, essas pinturas tinham por finalidade educar esses fiéis na fé católica. Outros, ligados à estética marxista, reivindicam que a arte deva ser engajada, isto é, comprometida com a sociedade, denunciando a opressão. A arte teria, em síntese, uma função conscientizadora.

Reflitamos sobre um tipo de manifestação comum hoje nas grandes cidades: os grafites. Andando pelas ruas, o leitor certamente já viu várias dessas manifestações; algumas delas lhe chamaram a atenção pela originalidade ou beleza; outras talvez tenham merecido um comentário depreciativo. Fica a interrogação: Grafite é arte? Qual é o limite que distingue um grafite de uma pixação? Os grafites embelezam a cidade ou a poluem visualmente? Costumamos definir grafite como manifestação artística feita em espaços públicos; mas se o desenho, por mais artístico que seja, tem como suporte um monumento público, devemos considerá-lo arte ou pixação feita por vândalos?

Comentamos que, em sua origem, a palavra arte está ligada à palavra técnica. Se arte e técnica têm algo em comum, devemos considerar o cinema, a fotografia e o design como formas de expressão artística? Se o cinema é, como dizem, a sétima arte, toda produção cinematográfica deve ser considerada uma obra de arte?

Marilena Chauí, em seu livro Convite à filosofia, chama a atenção para o fato de que, se perguntarmos a uma pessoa comum o que é um artista, muito provavelmente teremos como resposta que artista é um ator (de cinema, teatro ou televisão), um cantor ou um compositor musical. Se pedirmos que cite algum artista, podemos ter como respostas Anitta, Lady Gaga, Leonardo DiCaprio, Taís Araújo, Wagner Moura. Quanto a Machado de Assis e Graciliano Ramos, é muito provável que a mesma pessoa diga que não são artistas, mas escritores.

Se lhe pedirmos exemplos de obras de arte, fará referência a Os Lusíadas, aos quadros de Leonardo da Vinci, às esculturas de Rodin ou do Aleijadinho, às sonatas de Beethoven, aos prelúdios de Chopin. Chauí nos chama a atenção para o fato de que se identifica arte com um modelo de produção criado no passado e com a chamada cultura erudita e que, contrariamente, identifica-se artista com os produtos da chamada cultura popular.

O professor Alfredo Bosi, em seu livro Reflexões sobre a arte, afirma que hoje, para um homem de cultura mediana, “arte lembra-lhe objetos consagrados pelo tempo, e que se destinam a provocar sentimentos vários e, entre estes, um, difícil de precisar: o sentimento do belo”.

Realmente, quando ligamos o conceito de arte ao conceito de belo, caímos em outro problema: O que é o belo? Trata-se de um conceito objetivo ou subjetivo? Para nós, trata-se de um conceito intersubjetivo, entendendo-se por intersubjetividade a capacidade de partilhar entre sujeitos, conhecimentos, sentidos, experiências, ou seja, o julgamento de que uma coisa é bela ou não, embora seja pessoal (subjetivo, portanto), está ligado ao que outros (a sociedade, a cultura, a história) definem como belo.

In Blogue do Ernani Terra

Língua Portuguesa

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arroio da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Enunciação e Frase

Ernani Terra

Os enunciados são únicos e irrepetíveis, ou seja, sempre que alguém se apropria da língua e diz algo, temos um enunciado, não importando sua extensão. Assim, o simples ato de dizer bom dia a alguém até um extenso romance, passando por uma reportagem publicada numa revista são enunciados.  

Não devemos confundir enunciado com frase, pois se trata de conceitos relativos a domínios distintos. 

Usamos o termo frase quando estamos  no  domínio da gramática, que a define como uma palavra ou um conjunto de palavras que possui sentido completo.  Falamos em enunciado quando nos referimos a realizações efetivas da língua em situações concretas de interlocução.

Uma mesma frase pode corresponder a incontáveis enunciados. Uma frase como “bom dia” será um enunciado cada vez que for enunciada por alguém. O bom dia que você diz a um familiar quando acorda não é o mesmo bom dia que você diz ao porteiro do prédio, ou a seu colega quando chega ao trabalho. A frase é a mesma, mas os enunciados são distintos. Por outro lado, um enunciado pode comportar várias frases. Uma notícia de jornal, por exemplo, é um enunciado formado por  muitas frases.  

A enunciação pressupõe a existência de um sujeito que, por um ato de vontade, se apropria da língua e a converte em discurso.  A esse sujeito que põe a língua em funcionamento, damos o nome de enunciador. Como quem diz algo sempre diz algo a alguém, haverá sempre um enunciatário, aquele a quem se diz. Resumindo o que dissemos até aqui. 

Enunciação: é o ato de dizer e está pressuposta pela existência do enunciado. Trata-se do ato pelo qual um sujeito, o enunciador, se apropria das virtualidades da língua e a converte em discurso. 

Enunciado: o produto da enunciação. Aquilo que é dito, oralmente ou por escrito, independentemente de sua extensão. É o acontecimento linguístico, o discurso enunciado. Os enunciados são únicos e irrepetíveis.

Enunciador: aquele que diz, aquele que se apropria do sistema da língua e a converte em discurso, que, manifestado por meio de uma expressão, constituirá os textos. É o sujeito que se constitui no e pelo discurso. 

Enunciatário: aquele para quem se diz. Como a linguagem humana é marcada pelo dialogismo, ou seja, sempre que um eu, o enunciador, toma a palavra, dirige-se a um tu/você. Assim como o enunciador, o enunciatário é constituído no e pelo discurso  

Embora a maioria das pessoas, identifique apenas no enunciador o produtor do texto, é preciso ressaltar que o enunciatário também é produtor do texto porque é ele quem constrói o sentido que, muitas vezes, não é o mesmo que o enunciador pretendeu dar a seu texto. Além disso, ao produzir o texto, o enunciador cria uma imagem do enunciatário. Essa imagem determinará, consciente ou inconscientemente, as escolhas e os modos de dizer que resultarão no enunciado.

Nos textos escritos, muitas vezes, o enunciatário é o leitor presumido, ou seja, uma imagem que o enunciador constrói de seu leitor. Acrescentamos ainda que, dado o caráter dialógico da língua, as posições de enunciador (eu) e enunciatário (tu/você) se invertem constantemente. O enunciatário, ao tomar a palavra, passa a enunciador e aquele que, no momento anterior, exercia papel de enunciador passa a enunciatário, como você pode observar principalmente nos atos de conversação espontânea.

In Blogue do Ernani Terra

As origens, a trajetória e os novos caminhos do ensaísmo (uma entrevista com Liliana Weinberg)

Pesquisadora se dedica à compreender o ensaísmo e fala sobre origens do gênero inaugurado por Montaigne, características dessa “prosa de ideias” e sobre sua produção atual

Eduardo Cesar Maia

(Ensaísta, crítico e professor)

Quem acompanha meus escritos – aqui ou em outros espaços – já percebeu minha predileção por um gênero muito particular: o ensaio. Nos últimos anos, é nele – e a partir dele – que tenho pensado, investigado e exercitado minha própria forma de reflexão. Aproveitei os últimos dias de férias para me dedicar aos acabamentos de meu próximo livro: justamente uma coletânea de ensaios que exploram, entre outros temas, o alcance e o potencial da escrita ensaística em nosso tempo, tanto no debate público de ideias quanto no campo acadêmico. Ainda não quero revelar muitos detalhes, mas a obra será publicada nos primeiros meses deste ano. Pretendo utilizar este canal – o Substack Pássaros Interiores – como espaço alternativo de divulgação e discussão. Para iniciar essa jornada, disponibilizo agora uma entrevista que realizei há algum tempo com uma grande especialista no assunto, quando investigava justamente o ensaísmo e a vertente específica da tradição humanista em que ele se desenvolveu.

Reconhecida como uma das maiores autoridades acadêmicas nos estudos acerca do ensaísmo hispano-americano, Liliana Weinberg, nascida em Buenos Aires e naturalizada mexicana, tem se dedicado, entre outras coisas, à compreensão desse gênero híbrido, ao mesmo tempo tão rico e tão polêmico, que é o ensaio. Por se situar numa zona cinzenta, entre o filosófico e o literário, esse “centauro dos gêneros”, como propôs Alfonso Reyes, é tema até hoje de controvérsias, principalmente no âmbito acadêmico. Na entrevista a seguir, realizada em 2015 e publicada na Revista Disputatio (Espanha) e Continente (Brasil), a pesquisadora fala sobre as origens históricas do ensaio, aponta alguns possíveis precursores, discorre sobre as principais características que identificam esse tipo tão peculiar de escrita e mostra que ele está muito bem adaptado aos nossos tempos, ditos “pós-modernos”.

ECM – É possível determinar com precisão a origem histórica do gênero ensaio?
LW – Considero que Miguel de Montaigne é o inaugurador por excelência do gênero. Um autêntico “instaurador de discursividade” no sentido foucaultiano. Apesar de ser possível rastrear muitos antecedentes do ensaio na prosa não ficcional – e alguns críticos, como György Lukács, consideram que foi Platão mesmo o primeiro grande antecessor do ensaio –, sem dúvida quem realiza as operações discursivas decisivas para o gênero é Montaigne

ECM – Que características podem determinar se um texto é ou não um ensaio?
LW – O ensaio é prosa de ideias, escritura de interpretação, estilo de reflexão, que nos oferece uma perspectiva do mundo e convida o leitor a participar, como dizia Ortega y Gasset, de novas maneiras de ver as coisas. O primeiro traço que o caracteriza é que se escreve a partir de um eu que pensa e sente o mundo. O ensaio está sempre assinado, porque evidencia a responsabilidade pela palavra. O que buscamos no ensaio é um estilo do pensar e do dizer, um modo expressivo, uma escritura, um tom conversacional que inclui o leitor. Nele há uma apaixonante combinatória entre o fator pessoal, subjetivo, e o interpessoal. O ensaio é um gênero que, para dizê-lo com Pierre Glaudes, mostra-se, ao mesmo tempo, “egoísta e cívico”, ao vincular o íntimo, privado, particular, peculiar, próprio de um autor, com um alcance geral, destinado a interpretar e valorar distintos aspectos do mundo, conversar com os leitores e não só convencê-los, mas seduzi-los, aproximá-los não somente das ideias senão também da escritura. Quando nos aproximamos do ensaio, buscamos uma visão ou uma versão de distintas questões a partir do ponto de vista pessoal. Como disse Adorno, no ensaio não só se apresentam temas, problemas, conteúdos, senão o processo mesmo de pensá-los e o modo como o ensaísta nos inclui – seus leitores amigos – no processo de pensamento: convence-nos, faz-nos partícipes, como amigos aos que – como em uma conversação – deve-se ao mesmo tempo saber convencer e seduzir com suas intuições, imagens e demonstrações. Alguns leitores podem fazer uma abordagem superficial, pragmática, instrumental, interessada, coisificadora, do ensaio – que só busque unidades informativas ou atenda só aos conteúdos. Por exemplo, posso ler Casa grande & senzala porque quero extrair dados sobre certa etapa da vida do Brasil. Fazê-lo assim implicaria um tipo de leitura que Paulo Freire – e depois dele José Luis Gómez-Martínez – considerava instrumental, interessada. Mas também lemos um ensaio para alcançar uma experiência plena, desinteressada, conversacional, interpretativa, que nos permita dirigir nossa atenção à escritura, ao estilo, à experiência estética e ética. Regressando ao meu exemplo, posso ler através do ensaio de Gilberto Freyre um modo de interpretar a vida do Brasil, de descobrir estrategicamente certas zonas da cultura que podem ser chave para apoiar tal interpretação. A esse tipo de leitura podemos denominar “humanística”. Desse modo, posso chegar a ver como, graças ao prodigioso enfoque de G. Freyre, a “casa grande” e a “senzala” se convertem em um par de opostos que estabelecem entre si uma relação dialética que acompanha a interpretação de uma matriz cultural básica do Brasil, e funcionam em vários níveis ao mesmo tempo: literalmente, como formações culturais descritíveis por um historiador ou um antropólogo, mas também metaforicamente, inclusive como personificações e como chaves capazes de condensar diversos níveis de sentido.

ECM – Um valor filosófico central na modernidade foi o da “certeza”. O ensaio, não obstante, caracterizar-se-ia por não garantir nada e nem tampouco por esgotar os temas. Como o ensaio pode desenvolver-se sem levar em consideração essas “regras” filosóficas?
LW – Um tema que me obseda é precisamente o da boa fé e da verdade no ensaio: o ensaísta fala de boa fé ou de má fé? O ensaísta busca a verdade? E de que tipo de verdade se trata? Porque não é efetivamente uma certeza de caráter positivo, ou uma verdade popperianamente falseável. Em primeiro lugar, como diz Tomás Segovia, o ensaio se nutre precisamente dessa inadequação básica entre verdade e sentido na linguagem. É uma permanente busca de sentido guiada por uma fidelidade à verdade. Empregando uma imagem muito expressiva, Segovia diz que a verdade não é nem a inquilina nem a caseira da linguagem, nem a arrendadora nem a arrendatária: é sua fiadora. O ensaio lida com a verdade em um mundo feito valor, feito sentido. Por outra parte, diferentemente do que demanda a Lógica, que persegue univocidade e desambiguação, o ensaio trabalha com as línguas naturais, e é dentro delas que busca sentido: dentro da ambiguidade e da polissemia. O uso da linguagem que faz o ensaio não é meramente instrumental, não aspira só fixar significados em um domínio específico da realidade, como exigem, por exemplo, as perspectivas positivistas e cientificistas – são aproveitados os níveis expressivos, figurativos, simbólicos, como também as operações poéticas, para esclarecer o sentido e religar domínios. Em minhas aulas, quando procuro mostrar a diferença entre discurso científico e discurso ensaístico, sempre evoco o fato de que Florestan Fernandes declarou que Casa grande & senzala era um grande “antecedente” do conhecimento científico da sociedade. O ensaio de interpretação foi, assim, no momento da normatização das ciências sociais, convertido em um avô venerável, mas que devia ser mantido calado e tratado como familiar distante: um antecedente impressionista, um parente incômodo… E, contudo, sobreviveu à própria crise das ciências sociais.

ECM – Muitos pensadores (como Ernesto Grassi ou José Ortega y Gasset) assinalam um vínculo forte entre o ensaísmo e a tradição de pensamento humanista. A senhora está de acordo? Que tipo de relação seria essa?
LW – Estou de acordo. O surgimento do ensaio coincide em boa medida com o projeto humanista: uma recuperação das fontes clássicas, relidas com um enorme interesse de trazê-las ao presente e fazer conversarem os grandes mortos gregos e latinos com os vivos que querem incidir na consciência humana. No ensaio, evidenciam-se muitas das características do melhor humanismo: maior interesse pelo homem, reconhecimento da história como disciplina formativa, renovado interesse pela leitura e pelo livro, apropriação das fontes com um sentido de atualização, enorme atenção aos valores e interesse pela redefinição do conhecimento humano. O ensaio surge num momento chave, em que coincide a expansão do humanismo europeu, assim como também sua entrada em crise.

ECM – Que papel joga a metáfora – recurso muito comum no ensaísmo – no conhecimento filosófico?
LW – Sempre considerei a metáfora como uma figura ligada àquilo que os antropólogos estudam como “participação”, isto é, a possibilidade de enlaçar mundos e realidades diferentes através da postulação de uma analogia e uma afinidade qualificada entre mundos e níveis aparentemente diversos e impossíveis de combinar. O ensaísta amplia as dimensões do nominável e do inteligível; diz de maneira nova coisas novas, mas também se atreve a estabelecer relações impensadas por outros atores culturais. Gosto de dizer que o ensaísta converte os temas em problemas e os problemas em temas. Coincido também com aqueles que veem nas metáforas a possibilidade de modelar a realidade: aqui também nos aproximamos ao labor do ensaísta.

ECM – É possível falar de tradições ensaísticas diferentes de acordo com épocas ou países? Ou o gênero possui uma história única e continuada?
LW – Assim como Renato Ortiz se pergunta se é possível falar de uma ou de várias Américas Latinas, também é possível perguntar sobre se devemos falar de ensaio ou ensaios, e examiná-los efetivamente à luz de distintas tradições. Por exemplo, considero que a tradição latino-americana do ensaio não coincide com a peninsular. Para começar, vejo no Padre Bartolomé de Las Casas um antecedente do gênero, que se constitui como tal precisamente enquanto Las Casas toma uma distância crítica da cultura na que ele mesmo nasceu – agora convertida em cultura de conquista – e a denuncia. Por outra parte, o ensaio latino-americano do século 18 tem uma enorme proximidade com o ensaio da Ilustração, e a riquíssima prosa da independência se nutre de autores como Voltaire, Rousseau, assim como também da prosa que começa a circular a partir da França revolucionária e das ex-colônias norte-americanas.

ECM – Há espaço para o ensaio no ambiente filosófico pós-moderno?
LW – Não só há espaço, senão que grande parte do modo como se conforma o pensamento pós-moderno é já, em si mesmo, ensaístico. Contudo, há várias mudanças importantes entre a concepção moderna do ensaio no que se refere ao estatuto de verdade e ficção, ou ao estatuto de subjetividade etc.; e, sobretudo, quanto ao conceito mesmo de verdade, que se transformou muito – de maneira excessiva – na pós-modernidade. Desde meu ponto de vista isso deve ser repensado. A partir do momento em que a crítica da cultura e dos valores passa a ser considerada, com pleno direito, como instância filosófica da maior importância, o ensaio deixa de ser algo auxiliar para se converter em central. Considero que com Nietzsche se abrem as comportas que dividiam filosofia e literatura, e o ensaio alcança uma nova etapa na qual já não se pode separar a dimensão epistemológica da dimensão criativa.

ECM – E quem são os grandes ensaístas hoje em dia?
LW – Aqueles que são capazes de levar o ensaio a dimensões criativas e críticas cada vez mais audazes e sugestivas. Aqueles que seguem tentando reunir mundos e tarefas neste momento de especialização e coisificação. Na América Latina contamos com figuras-chave como Borges, Lezama Lima, Sarduy, Paz, Zambrano, que estabeleceram novos vínculos e cruzes entre ensaio e ficção, ensaio e narrativa, ensaio e poesia, ensaio e filosofia. Ou narradores que a partir do romance se avizinharam abismalmente do ensaio, como Clarice Lispector. E entre aqueles que levaram a própria crítica a novas dimensões que superam em muito o exercício meramente profissional para honrar a leitura e a interpretação, como não pensar no próprio Antonio Candido ou em Ángel Rama, figuras que, ademais, começaram a construir pontes entre o Brasil e a América Espanhola. Penso no ensaio sociológico de Renato Ortiz. Nos cruzamentos entre arte, estética e literatura por parte de John Berger. No resgate da experiência estética por parte de Muñoz Molina. Nos luminosos ensaios críticos – que ele provocativamente chama “formas breves” – de Ricardo Piglia. Na relação entre ensaio, moral e crítica política de Tomás Segovia. Nos ensaios de poética histórica de Derek Walcott. E acaba de morrer minha admiradíssima Nadine Gordimer, grande novelista, grande ativista sul-africana contra o apartheid, e também grande ensaísta. E cito só uns escassos nomes de uma lista infinita, a partir dos textos que eu mesma mais frequento como leitora.

Pássaros Interiores – 08/02/2026

Tese é tecnologia

Piero Franceschi

Instituições como o Instituto de Tecnologia de Harbin passaram a permitir que doutorandos se formem não com uma dissertação tradicional, mas com tecnologias funcionais.

Sistemas, protótipos, soluções aplicadas. Coisas que funcionam fora do papel. Isso rompe com o modelo dominante no Ocidente.

Nos Estados Unidos e na Europa, o doutorado ainda é medido majoritariamente por papers, citações e impacto acadêmico. Na China, a régua começa a mudar: valor é aquilo que se aplica.

Nada disso é casual.

O país está investindo pesado em tecnologia crítica e precisa de gente capaz de transformar conhecimento em capacidade produtiva. Não basta entender. É preciso operar. Não basta explicar. É preciso construir.

Essa lógica altera o papel da universidade. Ela deixa de ser apenas um espaço de validação intelectual e passa a funcionar como extensão direta da estratégia nacional de inovação.

O doutorado, nesse contexto, não é o fim de uma jornada teórica. É o início de uma entrega concreta.

Isso não significa desprezar ciência básica. Significa encurtar o caminho entre descoberta e uso. Reduzir o tempo entre a ideia e o impacto real.

Enquanto boa parte do mundo ainda discute métricas acadêmicas, a China parece responder outra pergunta: para que, exatamente, estamos formando doutores?

Talvez o recado seja simples e desconfortável.
Num mundo em disputa tecnológica, conhecimento que não vira capacidade acaba ficando pelo caminho.

In LinkedIn – 10/01/2026

Excelência técnica é também excelência intelectual

Ao tratar todos os estudantes como potenciais universitários, o país acabou desconsiderando a riqueza dos caminhos técnicos e a pluralidade de vocações que uma economia complexa exige

Por Erik Horner, diretor no Colégio Humboldt, São Paulo

Durante décadas, o ensino técnico brasileiro foi visto como uma alternativa menor, voltada à formação de mão de obra de baixa qualificação. A imagem de cursos ‘voltados à fábrica’ ainda ecoa em parte do imaginário nacional, alimentada por uma tradição que separa o saber intelectual do saber prático e, com isso, desvaloriza ambos. É uma herança profunda de nosso passado escravista, em que o trabalho manual foi associado à servidão e não à inteligência. 

Essa visão distorcida ajuda a explicar por que o país, mesmo com potencial produtivo e tecnológico, convive com uma escassez crônica de profissionais qualificados nos setores industrial, comercial e agrícola.

A consequência é dupla: produtividade estagnada e mobilidade social bloqueada. O jovem que não segue para a universidade encontra um vazio formativo entre a escola e o trabalho. E aquele que chega à universidade, muitas vezes, não encontra nela o que o mercado e a sociedade precisam. 

Criamos uma narrativa de sucesso centrada no bacharelismo, como se o diploma universitário fosse a única via legítima de realização, e deixamos de investir na educação profissional como eixo estratégico do desenvolvimento nacional.

Essa negligência não é recente. Desde as reformas educacionais dos anos 1980, o Brasil concentrou esforços na ampliação do acesso ao ensino básico, mas sem construir percursos diferenciados de formação. Investimos em quantidade de anos escolares, não em diversidade de itinerários. 

Ao tratar todos os estudantes como potenciais universitários, o país acabou desconsiderando a riqueza dos caminhos técnicos e a pluralidade de vocações que uma economia complexa exige.

A realidade de outros países

Nos países que mais avançaram na integração entre educação e economia o quadro é outro. A Alemanha, por exemplo, construiu seu modelo dual sobre uma ideia simples e poderosa: a prática é parte essencial do conhecimento. 

Nesse sistema, o estudante é simultaneamente aluno e aprendiz, vinculado formalmente a uma empresa que o contrata, o acompanha e o remunera durante o período de formação. Ele não está à espera de inserção no mercado, pois já vive o trabalho como ambiente de aprendizagem. Alterna períodos na escola e na empresa, articulando teoria e prática em um mesmo processo formativo que envolve empregadores, instituições e Estado. Todos reconhecem que formar bem é uma responsabilidade compartilhada.

A diferença central não está apenas na estrutura curricular, mas na visão de mundo. Na Alemanha, a prática é nobre porque representa o domínio consciente de um ofício, o saber que produz valor. No Brasil, ao contrário, o trabalho manual continua sendo visto como etapa inferior, quando na verdade é nele que se sustenta a maior parte da economia real.

Revalorizar o ensino técnico significa, portanto, mais do que abrir vagas, significa reconstruir o significado social do trabalho.

Os dados internacionais confirmam o potencial dessa transformação. Segundo o relatório Education at a Glance 2024, da OCDE, 44% dos alunos do ensino médio nos países-membros estão em programas vocacionais, muitos deles com experiências práticas em empresas. No Brasil essa proporção é de apenas 14%, ainda distante da média global. 

Curiosamente, somos exceção positiva em um ponto: as mulheres já representam 56% das matrículas no ensino técnico, desafiando o estereótipo de que essas formações são predominantemente masculinas. O estudo mostra também que adultos recorrem cada vez mais ao ensino técnico como forma de requalificação, o que amplia seu alcance social e econômico.

Outra pesquisa recente, encomendada pelo Senac São Paulo ao Instituto Locomotiva, indica que 56% dos jovens brasileiros de 14 a 18 anos acreditam que um curso técnico os ajudaria muito a realizar seus sonhos de vida. Fica claro: há demanda social por uma educação que una propósito e empregabilidade, teoria e prática.

O problema não é a falta de interesse dos jovens, mas a escassez de caminhos concretos que articulem esses elementos de forma consistente.

Essa percepção dos jovens deveria provocar uma reação imediata das escolas e das empresas. São elas que, juntas, podem transformar a aspiração em trajetória, desenhando itinerários técnicos conectados às dinâmicas reais do trabalho. Onde essa parceria se consolida, a educação profissional deixa de ser um remendo e passa a ser um projeto de futuro.

Modelo dual

Nessa direção, experiências consolidadas de ensino profissionalizante mostram que é possível superar a falsa dicotomia entre formação geral e formação técnica. O Colégio Humboldt, por exemplo, atua há mais de 40 anos com cursos técnicos de Administração, Logística e TI em cooperação permanente com empresas, a maioria de origem alemã. O modelo dual que inspira essa trajetória reproduz a lógica do aluno-aprendiz: o estudante aprende em sala e no trabalho, inserido no cotidiano produtivo da organização que o forma.

Ao adotar o trabalho como princípio educativo, a formação técnica devolve sentido à relação entre estudo e produtividade. A escola deixa de ser um espaço isolado e passa a dialogar com o mundo real, sem subordinar-se a ele. A empresa, por sua vez, assume papel corresponsável na formação de competências, reconhecendo que investir em aprendizagem é investir em sustentabilidade econômica e social.

O futuro do Brasil depende de nossa capacidade de dar dignidade ao trabalho e inteligência à produção. Isso exige política pública, investimento e, sobretudo, mudança cultural. O país precisa deixar de medir conhecimento apenas por títulos universitários e reconhecer que a excelência técnica é também excelência intelectual. Só assim poderemos alinhar o desenvolvimento humano ao desenvolvimento econômico e fazer da educação profissional um verdadeiro projeto de nação.

Revista Educação | Outubro 2025.

5 Claves de Aprendizaje para la Sociedad 5.0

Como sabrás, las competencias clave que nacen del Perfil de salida responden a la necesidad de formar al alumnado en afrontar los principales retos y desafíos globales del siglo XX. En este sentido, la educación debe tener presente el desarrollo tecnológico que ha llevado a hablar de la industria y la Sociedad 5.0, una nueva fase planteada a partir de la cuarta revolución industrial. 

La digitalización y el desarrollo tecnológico ha popularizado la Sociedad de la Información y la Industria 4.0, pero la propuesta de una Sociedad 5.0 nació en Japón a partir de detectar las limitaciones del concepto anterior, para proponer un nuevo modelo socioeconómico. Una quinta revolución que tiene la esperanza de poner en el centro el ser humano y el medio ambiente. Es decir, apostar por una digitalización y un desarrollo humano y sostenible.

A continuación te contamos las 5 claves de aprendizaje para la sociedad 5.0:

Fomentar habilidades digitales y tecnológicas

Con una sociedad cada vez más digitalizada, es fundamental que el alumnado adquiera habilidades digitales sólidas. Esto implica enseñarles no solo a utilizar herramientas y tecnologías, que les resultan familiares, sino sobre todo a comprender los mecanismos y principios que las hacen posibles. La programación, la robótica y la alfabetización digital deben formar parte del currículo, brindando a los alumnos una base sólida para desenvolverse en un entorno tecnológico.

Promover el pensamiento crítico y la resolución de problemas

En la sociedad 5.0, la capacidad de analizar de forma crítica la información y resolver problemas complejos se vuelve aún más importante. En el aula, se deben fomentar actividades que desafíen a los estudiantes a investigar, evaluar evidencias y desarrollar soluciones innovadoras, a partir de situaciones reales. El pensamiento crítico y la resolución de problemas deben ser competencias transversales en todas las áreas curriculares. 

Desarrollar habilidades sociales

A medida que la tecnología se vuelve más omnipresente, también es esencial desarrollar habilidades socioemocionales en los alumnos. La empatía, la colaboración y la comunicación efectiva se vuelven fundamentales en un entorno cada vez más interconectado. El fomento de estas habilidades en el aula a través de proyectos colaborativos desde Primaria, actividades de debate y resolución de conflictos puede preparar al alumnado para los retos en la Sociedad 5.0.

Fomentar la creatividad y la capacidad de adaptación 

La sociedad 5.0 está impulsada por la innovación y la creatividad. Es fundamental que el alumnado desarrolle su capacidad para pensar de manera creativa, generando ideas originales y soluciones fuera de lo común. Además, la capacidad de adaptarse a los cambios y aprender de manera continua es esencial en un entorno en constante evolución. Las actividades que fomenten la creatividad, el pensamiento lateral y la flexibilidad mental deben integrarse en el currículo escolar.

Enseñar ética y responsabilidad digital

A medida que la sociedad 5.0 se desarrolla, surgen nuevos dilemas éticos y preocupaciones relacionadas con la privacidad y la seguridad en línea. El alumnado debe ser educado en los aspectos éticos de la tecnología y cómo utilizarla de manera responsable. Los temas de ciudadanía digital, derechos digitales y alfabetización mediática deben abordarse en el aula para promover una participación informada y ética en la sociedad digital.

Conoce más sobre este tema a través de los cursos que tenemos para ti. Como el curso “Aprendizaje Basado en Proyectos: acercándonos a una metodología activa”.

Fuente: blog.vicensvives.com