A IA não está substituindo a inteligência humana. Está revelando quem realmente pensa

José Alberto Vigueras Moreno

Referência em IA aplicada à Docência e Pesquisa Científica

A IA não substitui a inteligência humana. Ela revela quem realmente sabe pensar. Uma análise baseada na ciência da aprendizagem e na educação contemporânea.

A inteligência artificial não está criando uma crise da inteligência humana. Ela está tornando essa crise visível.

Há poucos anos, a principal preocupação sobre a inteligência artificial era saber quando ela substituiria determinadas profissões. Hoje, a pergunta mudou.

A questão realmente importante não é mais “A IA vai substituir os seres humanos?” A pergunta passou a ser outra, muito mais desconfortável:

O que acontece quando dois profissionais utilizam exatamente a mesma inteligência artificial, mas um produz conhecimento extraordinário enquanto o outro apenas reproduz respostas previsíveis?

Essa diferença não está na tecnologia. Está na inteligência humana. E talvez seja justamente esse o maior fenômeno educacional da última década. A inteligência artificial não está substituindo a capacidade de pensar. Ela está expondo quem realmente desenvolveu essa capacidade ao longo da vida.

Durante décadas, confundimos desempenho escolar com aprendizagem, memorização com compreensão e acesso à informação com construção de conhecimento. A IA generativa desmontou essa ilusão em poucos meses.

Hoje, qualquer estudante pode solicitar ao ChatGPT uma explicação sobre física quântica, um resumo de Paulo Freire, um plano de aula, um algoritmo em Python ou uma revisão sistemática inicial sobre determinado tema.

Mas existe uma pergunta que a tecnologia não consegue responder sozinha:

Quem é capaz de avaliar criticamente aquilo que acabou de receber? É exatamente aqui que começa a verdadeira inteligência.

Quando todos têm acesso à mesma IA, a diferença passa a ser humana

Durante muito tempo acreditou-se que o diferencial competitivo seria possuir mais informação. Esse paradigma deixou de existir. A informação tornou-se abundante, instantânea e praticamente gratuita.

O novo diferencial passou a ser outro:

A capacidade de formular boas perguntas, interpretar respostas, identificar limitações, integrar diferentes perspectivas e construir novos significados.

Em outras palavras: A IA democratizou o acesso às respostas. Mas tornou muito mais visível a qualidade das perguntas. Essa mudança parece simples.

Não é.

Ela representa uma transformação profunda na própria natureza da aprendizagem. Na psicologia cognitiva, aprender nunca significou acumular informações. Aprender sempre foi reorganizar estruturas mentais.

Jean Piaget descreveu esse processo por meio da assimilação e acomodação. O conhecimento novo não substitui automaticamente o anterior; ele precisa ser integrado aos esquemas cognitivos existentes, gerando reorganizações sucessivas.

Décadas depois, Lev Vygotsky demonstrou que o desenvolvimento intelectual acontece nas interações sociais e nas mediações culturais. Hoje, pela primeira vez na história, uma dessas mediações pode ser uma inteligência artificial.

Isso muda completamente o cenário educacional. A IA deixa de ser apenas uma ferramenta tecnológica, ela passa a funcionar como um novo mediador cognitivo. Mas existe um detalhe frequentemente ignorado. A qualidade da mediação depende da qualidade do sujeito que interage com ela.

Uma IA extraordinária nas mãos de alguém sem pensamento crítico continuará produzindo resultados superficiais. Por outro lado, um indivíduo intelectualmente preparado transforma a mesma tecnologia em um poderoso amplificador da própria inteligência.

É por isso que duas pessoas utilizando exatamente o mesmo sistema obtêm resultados radicalmente diferentes. O fator decisivo nunca foi o algoritmo. Sempre foi o ser humano.

A IA amplifica competências que já existem. Ela dificilmente cria competências que nunca foram desenvolvidas.

O maior equívoco da educação atual

Talvez o maior erro que estejamos cometendo seja continuar preparando estudantes para responder perguntas. Enquanto isso, a inteligência artificial aprende a respondê-las cada vez melhor. Essa constatação deveria provocar uma profunda revisão curricular.

Benjamin Bloom publicou sua famosa taxonomia em 1956 organizando objetivos educacionais em níveis progressivos: lembrar, compreender, aplicar, analisar, avaliar e criar. Durante décadas, boa parte da educação permaneceu concentrada justamente nos níveis inferiores.

Memorizar, Reproduzir, Executar procedimentos conhecidos. A IA generativa tornou essas competências facilmente automatizáveis, não porque elas deixaram de ser importantes, mas porque deixaram de ser suficientes. Hoje, lembrar conteúdos é uma habilidade compartilhada entre humanos e máquinas. Criar novos conhecimentos continua sendo profundamente humano.

É exatamente por isso que os níveis superiores da Taxonomia de Bloom tornaram-se ainda mais relevantes na era da inteligência artificial.

Analisar, Avaliar, Julgar evidências, Construir argumentos, Resolver problemas inéditos, Criar soluções originais. Essas competências não desapareceram. Ao contrário, nunca foram tão valorizadas.

A IA não reduz o pensamento. Ela expõe sua ausência.

Existe uma narrativa bastante difundida segundo a qual a inteligência artificial estaria tornando as pessoas menos inteligentes. Essa afirmação parece intuitiva, mas talvez esteja incompleta.

A literatura recente sobre Cognitive Offloading (descarregamento cognitivo) mostra que delegar determinadas tarefas à tecnologia pode liberar recursos mentais para atividades cognitivas de maior complexidade. Entretanto, isso só ocorre quando existe monitoramento metacognitivo, autorregulação da aprendizagem e capacidade crítica para validar as respostas produzidas.

Sem essas competências, a delegação transforma-se em dependência, com elas, transforma-se em ampliação cognitiva.

Essa distinção é fundamental. A IA não empobrece automaticamente o pensamento, ela apenas torna muito mais evidente quem pensa antes de perguntar, durante a interação e depois de receber uma resposta.

Barry Zimmerman, um dos principais pesquisadores da Aprendizagem Autorregulada (Self-Regulated Learning), demonstrou que estudantes capazes de planejar, monitorar e avaliar o próprio processo de aprendizagem obtêm resultados significativamente superiores.

Curiosamente, essas mesmas competências parecem explicar por que alguns profissionais conseguem transformar a IA em uma parceira intelectual, enquanto outros permanecem dependentes de respostas prontas.

A tecnologia não criou essa diferença. Ela apenas a tornou impossível de esconder.

Na era da IA, a vantagem competitiva deixou de ser saber respostas. Passou a ser saber pensar melhor do que a máquina pode pensar por você.

Da mediação pedagógica à cognição aumentada: o que a ciência já está mostrando

Se existe uma característica comum entre as grandes revoluções educacionais, é que nenhuma delas começou pela tecnologia. Começaram por uma mudança na compreensão sobre como os seres humanos aprendem.

  • Foi assim com Dewey ao defender que aprender significa experimentar e refletir sobre a experiência.
  • Foi assim com Piaget ao demonstrar que o conhecimento é construído ativamente pelo sujeito.
  • Foi assim com Vygotsky ao mostrar que toda aprendizagem é profundamente mediada pelas interações sociais e culturais.

E talvez estejamos vivendo agora uma nova mudança paradigmática. Não porque surgiu uma tecnologia extraordinária, mas porque surgiu um novo tipo de mediação cognitiva.

A inteligência artificial passou a ocupar um espaço que, até poucos anos atrás, era exclusivo dos livros, professores, colegas, bibliotecas e buscadores da internet.

  • Ela dialoga.
  • Questiona.
  • Explica.
  • Resume.
  • Simula.
  • Contrapõe argumentos.
  • Personaliza exemplos.
  • Constrói hipóteses.

Esse comportamento faz com que muitos pensem que a IA está “ensinando”. Na realidade, ela está oferecendo uma nova forma de mediação, a aprendizagem continua acontecendo dentro do cérebro humano.

Essa distinção parece sutil, mas é enorme porque desloca o foco da pergunta.

A questão deixa de ser:

O que a IA consegue fazer?

E passa a ser:

Que tipo de pensamento ela desperta em quem a utiliza?

Essa mudança aproxima a discussão contemporânea daquilo que Jerome Bruner defendia há décadas.

Para Bruner, ensinar nunca significou transmitir respostas. Ensinar significa criar condições para que o aprendiz descubra relações, formule hipóteses e organize significados.

Uma IA utilizada apenas para entregar respostas reduz esse potencial. Uma IA utilizada para provocar reflexão amplia exatamente aquilo que Bruner chamava de aprendizagem por descoberta.

O verdadeiro poder da IA não está nas respostas que produz, mas nas perguntas intelectuais que ela consegue provocar.

A ciência dos últimos cinco anos começa a convergir

Entre 2021 e 2026, centenas de estudos passaram a investigar os efeitos da IA generativa sobre aprendizagem, produtividade e cognição. Embora os resultados ainda estejam em construção, um padrão começa a aparecer de forma consistente.

Os ganhos produzidos pela IA não são homogêneos, eles dependem fortemente das competências cognitivas prévias do usuário. Em outras palavras, a mesma ferramenta produz impactos completamente diferentes em pessoas diferentes.

Pesquisas conduzidas em universidades da Europa, Estados Unidos e Ásia mostram que estudantes com maior capacidade metacognitiva utilizam a IA para aprofundar análises, comparar perspectivas, revisar argumentos e produzir sínteses mais sofisticadas.

Já estudantes com baixa autorregulação tendem a aceitar respostas sem validação, reduzindo o esforço cognitivo necessário para compreender conceitos complexos. Essa diferença dialoga diretamente com a Teoria da Carga Cognitiva, desenvolvida por John Sweller.

Durante décadas, essa teoria mostrou que a memória de trabalho possui capacidade limitada. Uma boa instrução reduz cargas desnecessárias para liberar recursos mentais destinados ao raciocínio profundo.

  • A IA pode desempenhar exatamente esse papel., ela pode automatizar tarefas repetitivas.
  • Pode sintetizar grandes volumes de informação.
  • Pode estruturar ideias iniciais.
  • Pode acelerar buscas bibliográficas.
  • Pode apoiar revisões linguísticas.

Mas existe um limite.

  • A tecnologia reduz a carga operacional.
  • Ela não substitui a construção do significado.
  • Quem interpreta continua sendo o ser humano.
  • Quem estabelece relações continua sendo o ser humano.
  • Quem julga evidências continua sendo o ser humano.
  • Quem produz conhecimento original continua sendo o ser humano.

O paradoxo da autonomia

Existe outro fenômeno curioso acontecendo nas escolas e universidades. Nunca tivemos tantas ferramentas capazes de promover autonomia. Ao mesmo tempo, nunca observamos tantos estudantes inseguros para decidir sem apoio externo.

Esse paradoxo merece atenção.

A facilidade de obter respostas pode criar uma falsa sensação de competência. Saber acessar informação não significa compreendê-la, muito menos significa ser capaz de aplicá-la em situações inéditas.

Paulo Freire alertava que a educação libertadora nasce quando o sujeito deixa de repetir discursos e passa a problematizar a realidade. Essa ideia torna-se ainda mais atual diante da IA.

Se utilizarmos a tecnologia apenas para acelerar respostas, corremos o risco de fortalecer exatamente aquilo que Freire criticava: uma educação bancária digital, na qual o estudante acumula informações sem produzir consciência crítica. Entretanto, quando a IA é utilizada para ampliar o diálogo, confrontar perspectivas, construir argumentos e fomentar investigação, ela pode fortalecer uma educação problematizadora.

Perceba a diferença. Não é a ferramenta que define o modelo pedagógico. É a intencionalidade didática. A mesma IA pode servir tanto para automatizar o pensamento quanto para expandi-lo.

Talvez estejamos utilizando o conceito errado

Existe algo que me incomoda há bastante tempo. Quase todas as discussões falam sobre “uso da IA”.

Na minha percepção, essa expressão já se tornou insuficiente, ela reduz a tecnologia à condição de ferramenta, mas a IA contemporânea faz muito mais do que executar comandos.

  • Ela participa do processo cognitivo.
  • Ela influencia decisões.
  • Sugere caminhos.
  • Questiona hipóteses.
  • Expande possibilidades.

Por isso proponho que passemos a discutir um conceito mais adequado:

Cognição Aumentada.

Não se trata de inteligência artificial substituindo inteligência humana, trata-se de inteligência humana ampliando sua capacidade de pensar por meio de sistemas inteligentes.

Essa mudança conceitual altera completamente o foco da educação. O objetivo deixa de ser ensinar estudantes a utilizar IA e passa a ser formar indivíduos capazes de pensar melhor com ela. É uma diferença enorme. Porque desloca o centro da aprendizagem da tecnologia para a cognição humana.

Quem dominar apenas a IA dependerá dela. Quem desenvolver a própria inteligência fará da IA uma extensão do seu pensamento.

O Connectivismo ganha uma nova dimensão

George Siemens propôs, em 2005, que aprender significava estabelecer conexões entre pessoas, informações e redes. Na época, essa teoria respondia ao crescimento da internet.

Hoje, ela ganha uma nova camada. As conexões não acontecem apenas entre humanos, passam a incluir sistemas inteligentes capazes de participar ativamente do processo de construção do conhecimento. Isso não elimina o papel do professor, muito pelo contrário. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias, mais importante se torna a mediação pedagógica, o professor deixa de ser apenas fonte de informação e transforma-se em arquiteto de experiências cognitivas. É ele quem ajuda os estudantes a desenvolver critérios para avaliar respostas, reconhecer vieses, identificar limitações e formular perguntas melhores.

Em um mundo onde respostas são abundantes, ensinar a perguntar tornou-se uma competência central.

A nova literacia em IA

É exatamente aqui que nasce aquilo que venho chamando de Literacia em Inteligência Artificial.

  • Ela não consiste em dominar prompts.
  • Também não consiste em conhecer plataformas.
  • Muito menos em acompanhar cada novo modelo lançado.

Literacia em IA significa desenvolver competências intelectuais para pensar criticamente em ambientes mediados por inteligência artificial.

Isso envolve:

  • formular problemas relevantes;
  • elaborar perguntas investigativas;
  • validar evidências;
  • reconhecer alucinações e vieses algorítmicos;
  • integrar conhecimentos de diferentes áreas;
  • produzir sínteses originais;
  • tomar decisões éticas e fundamentadas.

Perceba que nenhuma dessas competências é exclusivamente tecnológica. Todas são profundamente humanas. É justamente por isso que elas se tornam ainda mais valiosas.

O futuro da educação talvez dependa da pergunta errada que estamos fazendo

Ainda insistimos em perguntar: “Como ensinar os estudantes a usar IA?”

Talvez a pergunta mais importante seja outra. “Como formar seres humanos cuja inteligência seja potencializada — e não substituída — pela IA?”

Essa mudança de perspectiva redefine o papel das escolas, universidades e políticas públicas.

  • A tecnologia continuará evoluindo.
  • Modelos mais poderosos surgirão.
  • Interfaces ficarão mais intuitivas.
  • A automação avançará.

Mas existe algo que continuará exclusivamente humano.

  • A capacidade de atribuir significado.
  • Interpretar contextos.
  • Exercer julgamento.
  • Questionar consensos.
  • Criar novos paradigmas.

Nenhum algoritmo faz isso de forma autônoma. Ele apenas reorganiza probabilidades a partir daquilo que nós, humanos, produzimos. Por isso, talvez a maior contribuição da inteligência artificial para a educação seja paradoxal.

Ela nos obriga a redescobrir o valor da inteligência humana, não porque a tecnologia seja limitada, mas porque ela evidencia, diariamente, que pensar continua sendo uma competência insubstituível.

Uma provocação para encerrarmos esta conversa

Talvez o maior erro da educação contemporânea não seja introduzir inteligência artificial nas salas de aula. O maior erro seria acreditar que ensinar IA é suficiente, por tanto, o verdadeiro desafio continua sendo o mesmo de sempre.

Formar pessoas capazes de pensar com rigor, curiosidade, autonomia, ética e criatividade.

Se conseguirmos fazer isso, a IA deixará de ser uma ameaça. Tornar-se-á a maior amplificadora da inteligência humana que já construímos. Caso contrário, ela apenas ampliará nossa dependência intelectual.

E essa escolha continua sendo exclusivamente nossa.

A inteligência artificial não está decidindo o futuro da educação. Ela está revelando quais modelos educacionais já não conseguem formar pessoas que pensem por si mesmas.


Para refletir

Se a IA responde cada vez melhor às perguntas, será que o verdadeiro currículo do século XXI não deveria ensinar, antes de tudo, a formular perguntas que nenhuma máquina consegue criar sozinha?

Como você acredita que a inteligência artificial está transformando a forma de pensar — e não apenas a forma de aprender — nas escolas e universidades?


REFERÊNCIAS

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Nota do Autor: Este texto e imagem foram desenvolvidos com apoio da IA, sob minha concepção, supervisão, validação científica e revisão integral. Todo o conteúdo e suas interpretações são de minha exclusiva responsabilidade.

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Literatura e Arte

Two people in a gallery looking at a urinal on a pedestal labeled 'Font'

Ernani Terra

A definição mais comum de literatura é que se trata de uma forma de arte que tem por matéria-prima a palavra. Essa definição, no entanto, parece não resolver o problema de se conceituar com precisão o que é literatura, na medida em que leva a uma discussão mais ampla: o que é arte?

Nossa posição vai ao encontro do que postula Vincente Jouve na obra Por que estudar literatura? quando afirma que “abordar a literatura como ‘arte da linguagem’ supõe ter antes definido a noção de ‘arte’. No entanto, não existe consenso neste ponto”.

A palavra arte provém do latim ars e corresponde à palavra grega techné, que em português aparece em palavras como técnica, tecnologia; conhecer a origem da palavra, nesse caso, não resolve o problema. Se há certo consenso em classificar as pinturas de Velázquez, Goya e Picasso e as músicas compostas por Beethoven, Bach e Mozart como arte, a situação se complica quando se trata de uma pintura rupestre, de cantos indígenas ou folclóricos. Mas não precisamos nos reportar a manifestações artísticas primitivas para ver que o conceito de arte é problemático.

A fonte, de Marcel Duchamp, um mictório branco de porcelana, exposto de maneira invertida, é uma obra de arte? Se o mictório estivesse em um banheiro masculino, seria considerado arte? O fato de estar exposto em um museu faz dele uma obra de arte?

Uma obra de arte é um objeto semiótico. Numa definição simples e provisória, um objeto semiótico é um signo, ou seja, algo que comunica alguma coisa para alguém, resultante de uma relação de pressuposição entre dois planos, o da expressão (o significante) e o do conteúdo (o significado), denominada semiose. O plano da expressão contém os elementos, apreendidos pela percepção, que tornam possível o aparecimento do conteúdo, vale dizer, os significados só existem graças a uma expressão que os manifesta, ou, para usar um antigo ditado, nada existe na mente que não tenha passado pelos sentidos.

Oscar Wilde, o célebre autor de O retrato de Dorian Gray, em um de seus aforismos, afirma: “Toda arte é completamente inútil”. O leitor deve estar estranhando; se a arte é inútil e a literatura é uma arte, por que ler romances e poemas?

Reflitamos: nem sempre o primeiro sentido da palavra que nos vem à mente corresponde ao que o autor empregou. Inútil é aquilo que não é útil. E o que significa útil? Nada mais, nada menos, segundo o dicionário Houaiss, do que aquilo “que pode ter ou tem algum uso; que serve ou é necessário para algo”. Ora, o que Wilde afirmou é que a arte não tem caráter utilitário, como um casaco, uma panela, um lápis. Não nos apropriamos de uma obra de arte para fazer com ela alguma coisa, mas simplesmente para fruí-la; por isso, a arte é inútil. Um casaco foi feito para nos proteger; uma panela, para cozinhar; um lápis, para escrever; mas obras como Fausto, de Goethe, Guernica, de Picasso, e a 9ª Sinfonia, de Beethoven foram feitas não para serem usadas, mas para serem fruídas.

Lembre-se: o mictório de Duchamp não foi exposto para ser usado, mas para ser apreciado. Os exemplos citados nos levam a uma outra reflexão: casacos, panelas e lápis são objetos produzidos em série e anônimos, enquanto Fausto, Guernica e a 9ª Sinfonia são objetos únicos e identificados a um autor, Goethe, Picasso e Beethoven, respectivamente.

O leitor poderá contra-argumentar que há vários exemplares de Fausto, várias gravações feitas por orquestras diferentes da 9ª Sinfonia disponíveis no Spotify, várias gravuras de Guernica. De fato, mas trata-se de reproduções de uma obra única feitas por processos industriais. Há várias reproduções da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, que podem ser adquiridas por qualquer pessoa a um preço acessível. Mas a obra de arte Mona Lisa, de Da Vinci, é única e está no Museu do Louvre em Paris e não tem preço.

Evidentemente, há teorias que postulam que a arte não é apenas para ser fruída. Alguns afirmam que a arte deve ter um caráter pedagógico. As igrejas antigas medievais apresentavam pinturas na parede que reproduziam a paixão de Cristo; considerando-se que grande parte dos fiéis era analfabeta, essas pinturas tinham por finalidade educar esses fiéis na fé católica. Outros, ligados à estética marxista, reivindicam que a arte deva ser engajada, isto é, comprometida com a sociedade, denunciando a opressão. A arte teria, em síntese, uma função conscientizadora.

Reflitamos sobre um tipo de manifestação comum hoje nas grandes cidades: os grafites. Andando pelas ruas, o leitor certamente já viu várias dessas manifestações; algumas delas lhe chamaram a atenção pela originalidade ou beleza; outras talvez tenham merecido um comentário depreciativo. Fica a interrogação: Grafite é arte? Qual é o limite que distingue um grafite de uma pixação? Os grafites embelezam a cidade ou a poluem visualmente? Costumamos definir grafite como manifestação artística feita em espaços públicos; mas se o desenho, por mais artístico que seja, tem como suporte um monumento público, devemos considerá-lo arte ou pixação feita por vândalos?

Comentamos que, em sua origem, a palavra arte está ligada à palavra técnica. Se arte e técnica têm algo em comum, devemos considerar o cinema, a fotografia e o design como formas de expressão artística? Se o cinema é, como dizem, a sétima arte, toda produção cinematográfica deve ser considerada uma obra de arte?

Marilena Chauí, em seu livro Convite à filosofia, chama a atenção para o fato de que, se perguntarmos a uma pessoa comum o que é um artista, muito provavelmente teremos como resposta que artista é um ator (de cinema, teatro ou televisão), um cantor ou um compositor musical. Se pedirmos que cite algum artista, podemos ter como respostas Anitta, Lady Gaga, Leonardo DiCaprio, Taís Araújo, Wagner Moura. Quanto a Machado de Assis e Graciliano Ramos, é muito provável que a mesma pessoa diga que não são artistas, mas escritores.

Se lhe pedirmos exemplos de obras de arte, fará referência a Os Lusíadas, aos quadros de Leonardo da Vinci, às esculturas de Rodin ou do Aleijadinho, às sonatas de Beethoven, aos prelúdios de Chopin. Chauí nos chama a atenção para o fato de que se identifica arte com um modelo de produção criado no passado e com a chamada cultura erudita e que, contrariamente, identifica-se artista com os produtos da chamada cultura popular.

O professor Alfredo Bosi, em seu livro Reflexões sobre a arte, afirma que hoje, para um homem de cultura mediana, “arte lembra-lhe objetos consagrados pelo tempo, e que se destinam a provocar sentimentos vários e, entre estes, um, difícil de precisar: o sentimento do belo”.

Realmente, quando ligamos o conceito de arte ao conceito de belo, caímos em outro problema: O que é o belo? Trata-se de um conceito objetivo ou subjetivo? Para nós, trata-se de um conceito intersubjetivo, entendendo-se por intersubjetividade a capacidade de partilhar entre sujeitos, conhecimentos, sentidos, experiências, ou seja, o julgamento de que uma coisa é bela ou não, embora seja pessoal (subjetivo, portanto), está ligado ao que outros (a sociedade, a cultura, a história) definem como belo.

In Blogue do Ernani Terra

Língua Portuguesa

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arroio da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!